A Caverna

Esta é a caverna, quando a caverna nos é negada/Estas páginas são as paredes da antiga caverna de novo entre nós/A nova antiga caverna/Antiga na sua primordialidade/no seu sentido essencial/ali onde nossos antepassados sentavam a volta da fogueira/Aqui os que passam se encontram nos versos de outros/os meus versos são teus/os teus meus/os eus meus teus /aqui somos todos outros/e sendo outros não somos sós/sendo outros somos nós/somos irmandade/humanidade/vamos passando/lendo os outros em nós mesmos/e cada um que passa se deixa/essa vontade de não morrer/de seguir/de tocar/de comunicar/estamos sós entre nós mesmos/a palavra é a busca de sentido/busca pelo outro/busca do irmão/busca de algo além/quiçá um deus/a busca do amor/busca do nada e do tudo/qualquer busca que seja ou apenas o caminho/ o que podemos oferecer uns aos outros a não ser nosso eu mesmo esmo de si?/o que oferecer além do nosso não saber?/nossa solidão?/somos sós no silêncio, mas não na caverna/ cada um que passa pinta a parede desta caverna com seus símbolos/como as portas de um banheiro metafísico/este blog é metáfora da caverna de novo entre nós/uma porta de banheiro/onde cada outro/na sua solidão multidão/inscreve pedaços de alma na forma de qualquer coisa/versos/desenhos/fotos/arte/literatura/anti-literatura/desregramento/inventando/inversando reversamento mundo afora dentro de versos reversos solitários de si mesmos/fotografias da alma/deixem suas almas por aqui/ao fim destas frases terei morrido um pouco/mas como diria o poeta, ninguém é pai de um poema sem morrer antes

Jean Louis Battre, 2010

21 de agosto de 2017

inércias


o poeta recolhe os restos das inércias
exerce o peso dos esquecimentos
tropeça nas fadigas
escolhe as horas mortas entre os pontos esquecidos
marca as margens derradeiras
& não desiste dos fracassos

Salvador Passos

5 de junho de 2017

o vento das palavras (ou mito de sísifo)

recolho o vento nas palavras/amargo o tempo como quem arrasta sonhos/amarro os nomes com palavras/agarro as coisas com a boca/elas tem um gosto amargo/um gosto gasto pelo mesmo/e as coisas me escapam pelos dedos/entre os dentes/não separo o sal da pedra/não separo o céu do olho/talho coisas/frases soltas/sopros/prantos/vagas vozes/sopros postos/encontro atalhos/como quem posta um ponto nas reticências do infinito/poema é só um ponto solto entre os três já postos pontos/entreposto/o silêncio das palavras é como outra manhã qualquer/não resta o que fazer/estou fadado à escrever palavra após palavra/esticar a corda sobre o abismo/andar/atravessar/encaro o branco que se posta à proa/no começo de cada dia/acordo/como/tomo um café atrás do outro/escrevo uma linha após a outra em desalinho/muitas morrem levando um pouco de mim mesmo/ao perder o que não tenho eu me encontro/salgo os dias com o sopro do cotidiano/conto os lapsos/as horas/perco os passos/e no passo a passo do poema/ensaio/mas fico de onde já não saio/solto as sílabas no silêncio em branco/o papel acolhe o nada/recolho espantos

Salvador Passos

2 de junho de 2017

BILHETE PARA BIVAR

hoje é o dia que os
          anjos descem nas
          catacumbas de cimento
sem o aviso das
          máquinas de empacotar
sem saltar sobre
          caramanchões de poluição
disseminando comportamento
           de Lacaio
é o momento do
           último homem
o que dura mais
           tempo
é o tempo do crime
           & sua prova
a caveira que ri
           na noite vermelha
a explosão demográfica
& a fome a galope
é o Sol mudo a
Lua paralítica
Drácula janta na
            Esquina
E para que ser poeta
             em tempos de penúria? Exclama
             Hölderlin adoidado
assassinos travestidos em folhagens
hordas de psicopatas
              atirados nas praças
enquanto os últimos
              poetas
perambulam na noite
              acolchoada

Roberto Piva

Amor América

A maior cena de amor Americana não é nenhum beijo de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Não tem Deborah Kerr nem Gregory Peck, não é aquele beijo do soldado na enfermeira no final da Segunda Guerra Mundial. A maior cena de amor Americana é Jacqueline Kennedy Onassis subindo em desespero a capota daquele Ford modelo Lincoln para catar os pedaços explodidos da cabeça de John Fitzgerald Kennedy. São algumas dezenas de fotogramas da primeira dama em transe, ensangüentando as mãos nos miolos daquele 22 de novembro de 1963. Lee Harvey Oswald matou Kennedy. Dois tiros cirúrgicos, um no pescoço e outro fatal na cabeça. Foi você mesmo Oswald?! Não! Oswald o teria devorado! Lee Harvey ex-marine. Até tu Brutus?! É presidente, quem deu o tiro foi um dos teus... Naquele dia D of the Big D, Dallas city. Don´t you mess with Texas, Mr. President. Sempre que vejo um beijo em preto e branco ou escuto ao longe o Sam tocando de novo em Casa Blanca, lembro de Dona Jacqueline ajoelhada no carro, já funerário, atrás do cérebro espatifado do marido. Amar é ter nas mãos essa massa cinzenta que pensava a América! Cinzenta como a Lua que ele queria conquistar. Flicts. É presidente, naquele 20 de julho de 1969 lembrei de suas palavras. Um homem na lua. E você, o que teria pensado Kennedy ao ver na distância aquele foguete Saturno V cortando os céus como a bala que cortou o ar até a sua cabeça?! A small trigger for a man’s finger but a giant blow for a human head! Dona Jacqueline catando miolos para alimentar mortos vivos! Miolos! Miolos! Nada é por acaso nessa vida. Lincoln morreu na sala Ford do teatro Kennedy. Kennedy morreu num Ford modelo Lincoln. É, nada é por acaso nessa vida. Sempre que penso no amor na América penso em Dona Jacqueline ajoelhada, apavorada, apaixonada, com as mãos empapadas de sangue, catando a cabeça explodida do marido.

E Pelé disse: Love, Love and Love!
 

Nefelibata ou aguas de março reloaded

“- Trate de tomar sua sopa, seu maluco, mercador de nuvens.”
 Charles Baudelaire


chove há tanto tempo
chove há tantos dias
chove há tantas eras
que parece que o certo
é mesmo o mundo assim
chovendo
mesmo que chovendo no molhado

olhando as nuvens
na contraluz elétrica da cidade
vai dando um medo
medo de que o mundo esteja mesmo é nas nuvens
que os prédios se condensem
e que caiam gotas de apartamentos
para o céu


Domingos Guimaraens

29 de maio de 2017

daltônicos vendem balas nos sinais de trânsito

vejo os aquários de concreto
alçar seu voo sólido sobre o imaginário das cidades
entre janelas e vértebras oxidadas
vejo arenques
que escondem suas escamas espelhadas
sob ternos burocráticos
ao melhor estilo armani
um prometeu acorrentado
com tendências pirofóbicas
condenado a atar e desatar gravatas
usando apenas anacrônicas barbatanas

agitam involuntariamente suas mandíbulas
tentando desatar o nó da forca 

qual escorregadia colonização os leva
a adotar distantes vestimentas

desesperados gestos
de ânsias
e espasmos

brânquias claustrofóbicas
numa espécie de contorcionismo afásico
buscando o oxigênio esquecido das palavras em preto e branco

trechos de uma comédia do cinema mudo
replicando algum tipo de gagueira automática

habitantes de janelas cegas
hipnotizados pela estática das TVs abandonadas
arma de distração em massa

dois aquários mudos sobrepostos:
janelas e TVs abandonadas
multiplicando um diálogo impossível de ser datilografado a distancia

nas ruas enxames de daltônicos vendem balas nos sinais de trânsito
mariposas fotofóbicas não querem mais ornamentar poemas líricos

estamos presos no engarrafamento da autopista Sur
e confundimos utopias com a meteorologia

Salvador Passos

23 de maio de 2017

transe das cidades

afundam as cidades em algum transe tectônico
as horas são marcadas pelas turbulências
vejo um relógio imóvel preso no horizonte
aviões indiferentes passam sobre nossas vidas
estragam o silêncio das manhãs à toa
espiões distantes
expoentes de um progresso sem silêncios
árvores cortadas bem na tarde de domingo
sangra o silêncio entre os prédios 
muitos gritam
mas não adianta
o progresso é uma máquina automática de amordaçar delírios
o incêndio das palavras arde nas esquinas
são poucos os que percebem o naufrágio nas vitrines
existem fósseis dentro das calçadas
nomes esquecidos nas planícies

ainda habito a precária arquitetura do silêncio
& corro pelas ruas sem palavras

o poema é um incêndio infinito

Salvador Passos

18 de maio de 2017

novo mantra

fundar-se com a essência
e dela tirar um sentido
- ainda que insuficiente-
de alguma insurreição.

não se tornar
o que se estava pronto
para se tornar.

essas coisas não são
verdadeiras e podem
nos fazer bem felizes.

olhar para as plantas
do caminho sem pés.
não decorar nomes,
olhar as plantas
na escuridão.

não se especializar.
abraçar ingenuamente
a impossibilidade
e o terrível sofrimento
de ser um pouco de tudo
ou quase nada.

observar as pombas
sobre as poças
da última inundação.

como são sujas e alegres.

ser sujo e alegre
após a inundação.

Leonardo Marona

27 de abril de 2017

a cidade tatuada nos olhos 2

há um resíduo de futuro
na avenida

entre carros e caminhões
banhados pela tarde
acena a carne

o corpo atrasa engrenagens
forja com sua frágil arquitetura
precárias barricadas

o aço corta o nó das horas
arrasta os ossos 
demanda esforços

o asfalto apenas multiplica esquinas
atropela ausências

sangram as sagradas chagas da palavra
soletrando a sombra de um sol insone

o sangue espesso nas escadas
corpos e facadas

na manhã
o beijo se transforma
camelôs e guardas se encontram ao redor da morte

agora
resta a navalha sob a sombra de um beijo proibido
vergonha e ódio incontido

- a epiderme se desloca
a cidade cresce
desenha e apaga
a superfície negra que não dorme

- no alto do edifício
um relógio marca horas repetidas

aço de janelas cegas
frágeis pálpebras devassadas
vértebra indefinida
osso do poema
argamassa bruta
dobradiças da cortina
cercas fronteiriças
vertigem inviolável
sol que solda horas mortas

o segredo da palavra nas entranhas da cidade
mar que arma as ondas do naufrágio
ar que arfa o arranjo do incontido

arde a tarde entre os carros
arde a vida nas entranhas das palavras

partem todos sem destino
perdidos neste rio sem gramática
partem sem um nome que defina
o incêndio embaçado desta luz cortante

há janelas que acenam com imagens cruas
vértebras oxidadas
tvs abandonadas
vozes mudas
movendo suas bocas
num imenso corpo de concreto

reverbera
a cidade
(que se perde aos poucos)
um navio que aderna no horizonte
a memória que escorre nas palavras

entre as letras
desaba o silêncio no intervalo da cidade
- o mar de nomes,
ossos escavados na areia
nas calçadas

nas paredes da cidade sonolenta
o eterno espanto das palavras

no rumor da noite
na arquitetura da carne
nos espasmos da palavra
escuto a aproximação dos Coiotes

Salvador Passos

25 de abril de 2017

a cidade tatuada nos olhos

há um resíduo de futuro
na avenida
entre carros e caminhões
acena a carne

o corpo atrasa engrenagens
forja odores moribundos
o aço corta o nó das horas
arrasta os ossos 
demanda esforços fúteis

o asfalto apenas multiplica esquinas
atropela ausências
apodrecimento

sangram as sagradas chagas da palavra
soletrando a sombra de um sol insone
o sangue espesso nas escadas
corpos e facadas
na manhã

o beijo
se transforma em faca
camelôs e guardas
se encontram
ao redor da morte

agora resta a faca
sob a sombra de um beijo proibido
vergonha e ódio incontido

a epiderme se desloca
a cidade cresce
desenha e apaga
a superfície negra
que não dorme
no alto do edifício
um relógio marca horas repetidas

frágeis pálpebras devassadas
vértebra indefinida
osso do poema
argamassa bruta
dobradiças da cortina
cercas fronteiriças
vertigem inviolável

o segredo da palavra nas entranhas da cidade
mar que arma as ondas do naufrágio
ar que arfa o arranjo do incontido

aço de janelas cegas
sol que solda as horas mortas

arde a tarde entre os carros
arde a vida nas entranhas das palavras

partem todos sem destino
perdidos neste rio sem gramáticas
partem sem um nome que defina
o incêndio embaçado desta luz cortante

há janelas que acenam com imagens cruas
vértebras oxidadas
tvs abandonadas
vozes mudas
movendo suas bocas
num imenso corpo de concreto

reverbera
a cidade
(que se perde aos poucos)
um navio que aderna no horizonte
a memória que escorre nas palavras

entre as letras
desaba o silêncio
no intervalo da cidade
(o mar de nomes)
ossos escavados na areia
nas calçadas

nas paredes da cidade sonolenta
o eterno espanto das palavras

no rumor da noite
no relógio inerte
escuto a aproximação dos Coiotes

Salvador Passos

colecionava gestos entre as páginas

colecionava gestos entre as páginas do caderno
a morte das horas

comia o silêncio dentro dos livros
a lua se encontrava em cada página
o ônibus se ausentava
o continente era o mesmo
não sabia recitar o silêncio das palavras

esperava pela poesia como quem explica a quarta feira

esquecia as ruas pelas tardes como quem desloca a morte para as margens

ainda habito a precária arquitetura do silêncio
& corro pelas ruas sem palavras

Salvador Passos

10 de abril de 2017

o motorista me responde que sim

o motorista me responde que sim
é direto
é uma satisfação
poupar alguns minutos
em trânsito
tenho um pé na escada e outro no chão
na hora que pego o impulso
reparo
a Central molhada
sem proteção
nesse instante desejo:
ser amada aqui
nesse lugar
nessa língua
pela vibração em que respondo
obrigada
e saco meu Bilhete Único
uma sério de gestos
que domino
sem hesitar
tento te ver
nesse contexto
desarmado
o amor talvez seja
sempre quebrar
os hábitos
no entanto sustentam 
um rumo disponível 
às vezes a repetição
não é
monotonia 
não é 
falta
pode ser 
um guia
pode ser
desenhar um mapa
com a carne
dos dedos 
toco as teclas
sem enxergar
suas letras formo
palavra 
passos 
de dança 
memória 
física
a história
é um sopro encarnado
entre as paredes e línguas e peles
ser amada aqui
em uma cidade que exige
que sua
que avacalha
que muda
as linhas
a cada 3 meses
e sufoca a rotina
e gargalha da estabilidade
quando subo no 315 Central – Recreio é uma vitória 
porque sabe-se lá até quando 
sabe-se lá quantas novas linhas 
a extinguir narrativas
então quando subo no 315 Central – Recreio
enxergo que grande parte do meu ser não é
feito de sublimações e essencias
grande parte do meu ser se faz
entre essas linhas
que traço e apago diariamente
pela cidade
Alvorada – Del Castilho – Cinelândia
Rua da lapa – Cinelândia – Central – Recreio
grande parte do meu ser é
deslocamento
automático
como meus dedos
a dançar palavras
sobre as teclas 
quase porque às vezes faísca
espera trânsito barracos 
e desencontros
hoje no 614 Alvorada – Del Castilho 
vi um rapaz confuso e o motorista indisposto
vi uma garota se aproximar talvez oferecendo ajuda
eles conversam claramente ele não é daqui
ela parece mais certa
do que faz imagino se
pela ajuda vão iniciar um contato trocar contato marcar uma cerveja começar algo
então entendo que na verdade já existe são algo
um casal nesses tempos nunca se sabe o termo certo mas são
algo ela só foi ajudar depois de um tempo porque está magoada
com algo depois dos minutos em que se explicam
passam o resto da viagem em silêncio
um ao lado do outro 
pelo silêncio compartilhado vejo que são
algo
na hora de descer a fila se forma com antecedência
ele se aproxima muito com indiferença
ela permite
ela desce em passos rápidos ela sabe
pra onde ir
ele segue afobado
caso a perca não sabe
para onde seguir em Del Castilho 
eles ficam na fila para comprar um bilhete
eu sigo em passos de quem sabe o caminho mais do que gostaria 

então quando subi com certeza no 315 –EXPRESSO
a repetição do impulso
sem hesitar
o amor é sempre
quebrar hábitos
se fazer estrangeira
em terras sem raiz
é atalho
no mais íntimo
dos movimentos 
guardados de cor
entre a língua a pele e as paredes
desejo 
laço que faz
dos pontos
de passagem
escolha
 

Essa cidade

O exílio é a umidade que sustenta o céu desta cidade. O exílio é São Conrado às 16:57 de uma sexta-feira. O exílio é te ver atravessando a rua como uma terra conquistada e em extinção. O exílio é não encontrar as memórias que guardei em cada mesa do nosso bar. O exílio é todo verão começar o mesmo de novo. O exílio é passar purpurina como uma veste de guerra. O exílio é o quarto dos pais em seu segredo original. O exílio é estar indiferente ao pôr do sol visto da Urca. O exílio é passar por aquela porta com gosto de ruína. O exílio é nunca mais arriscar a Baía de Guanabara. O exílio é o Bar da Cachaça. O exílio é se aproximar lentamente de cada montanha e não entender nada. O exílio é depois de uma certa idade as pessoas não mudam mais. O exílio são nossos diplomas e suas expectativas. O exílio é aquela tese que virava as dores como lajes. O exílio é uma fotografia esquecida em um dispositivo móvel em que uma noite - com a ajuda de um aplicativo - emerge transfigurada em armadilha. O exílio são as rosas rejeitadas por Iemanjá. O exílio é a janela com vista para um rio morto. O exílio é encontrar o equilíbrio estático que sela os poros para ser enfim independente das fases da lua. O exílio é minha pílula anticoncepcional. O exílio é sempre voltar pra casa. O exílio não são duas linhas. O exílio não é um lugar. O exílio é o começo daquele dia em que sem saber o motivo só assenti. O exílio parece áspero e é precisamente onde se pode descobrir. O exílio só termina quando se sabe que não tem fim. O exílio te implora para não olhar e quando você encara de fato está. O exílio é buscar saídas.



31 de março de 2017

esfinge de cimento

What sphinx of cement and aluminum bashed their skulls and ate up their brains and imagination?
Howl (Allen Ginsberg)

ando pelo brusco âmago
das feridas postergadas

escafandro das noturnas horas
soletrando a sombra de um sol insone

mil janelas cegas
trono de assombros 
moloch tectônico

lápides desertas que se erguem
na eterna noite dos milênios
trump tower

rachaduras no estranho monolito do ocidente

Salvador Passos

30 de março de 2017

percebe o enrijecimento da musculatura

percebe o enrijecimento
da musculatura,
das asas e das nadadeiras.
percebe que suas articulações
couberam perfeitamente num conto do murilo rubião.
e como uma lava-pé entusiasmada
com a formação da sua mandíbula
lê poemas no centro de uma caosfera,
lê poemas neste calabouço
arquitetonicamente barulho e cor da urbano-cidade.
lê poemas
seja na esmerilhadeira ou
na bicheira canina,
mesmo com gagueira, teimosia e cacofonia,
lê poemas
no aparelho de quimioterapia, na linha de produção fabril,
sem tímpanos, sem amígdalas,
sem colete e sem capacete;
lê poemas;
este mantimento, este armamento, estas ferramentas
usadas pelas trezentas e sessenta e cinco detentas
que escavaram um túnel de fuga da veia aorta
até a palavra resiliência.


Matheus José Mineiro

29 de março de 2017

Até quando

O amanhã fará estourar tempestades de eclipses da lua
ou jorrar relâmpagos de sódio
quando o verás como um vagão de gado
semelhante a um amontoado de polícias na neve
que queria comê-los
ou quando o chamarás como um fantasma
que te pela ovos duros como a Lista Telefônica
tão magra hoje em dia que parece um guarda-pó
que perdeu seus óculos como um mar que vê afundar
   sua ilha
O amanhã não é um ramo de azevinho numa cápsula
  de obus
O amanhã não é um almoço a preço fixo como um
  gafanhoto
nem um sorriso de zeladora que inveja a sorte dos
  arengues no seu caixote
nem um desfile de escoteiros conduzidos por uma
  bênção numa cueca
nem a erva que brota entre as pedras do calçamento
  envergonhadas de não estarem penduradas
  no pescoço de um afogado
mas se quiseres o amanhã é brilho entre os trilhos
  dos bondes
a noite
enquanto as manadas de escaravelhos vermelhos com
  olhos de siamês
murmuram a meus ouvidos como um pato exausto
Rosa foge Rosa foge
O amanhã jorrará do deserto como um oásis flutuante
onde as pedras gritam aos berros
Eu te vi bandeira de carvão com estrelas azuis


Benjamin Péret

28 de março de 2017

há pessoas que só querem ser vizinhos

há pessoas que só querem ser vizinhos
ler diariamente seus horóscopos
amarrar sapatos antes de sair de seus apartamentos
subir e descer nos elevadores

raramente abrem as cortinas
alegam sofrer de dolorosa artrite
não escutam o naufrágio em cada esquina 
sentem-se seguros com seus extintores
nunca assoviam nas escadas
prendem uma corda imaginária
em seus finos tornozelos
sentem frio no inverno
ligam seus ventiladores no verão
confundem sono com insônia

carregam sob os braços
a última versão da convenção do condomínio
certa feita permitiram crocodilos entre os escaninhos
(a convenção apenas proibia cães e gatos)
 
olham seus relógios como quem procura as horas
não percebem o incêndio infinito dos segundos
não escrevem nas paredes
dizem que adoram rimas
mas se perdem na arquitetura de seus corpos

Salvador Passos

22 de março de 2017

Um Nome



Um nome nunca é escrito corretamente –
eu é uma pessoa que espera
uma terceira pessoa na esquina
Ele é um mamífero alguém que não consegue dormir
uma caixa com eu dentro
um nome escrito errado –
Um nome escrito errado se fosse caixa
caixote se fosse um americano se fosse um
hipopótamo se fosse um rinoceronte
Ele é a terceira pessoa contando da esquerda
para a direita na fotografia –
Eu é alguém que escreve o endereço errado
num formulário
Um formulário é uma caixa de nomes
e endereços – uma caixa com o suco
de rinocerontes hipopótamos americanos
e franceses exilados no continente
africano –
seria legal se o mundo se
chamasse pablo picasso
mas é impossível com tanto peso
repetiu um dos mamíferos
Impossível com tanto nome

Franklin Alves Dassie