A Caverna

Esta é a caverna, quando a caverna nos é negada/Estas páginas são as paredes da antiga caverna de novo entre nós/A nova antiga caverna/Antiga na sua primordialidade/no seu sentido essencial/ali onde nossos antepassados sentavam a volta da fogueira/Aqui os que passam se encontram nos versos de outros/os meus versos são teus/os teus meus/os eus meus teus /aqui somos todos outros/e sendo outros não somos sós/sendo outros somos nós/somos irmandade/humanidade/vamos passando/lendo os outros em nós mesmos/e cada um que passa se deixa/essa vontade de não morrer/de seguir/de tocar/de comunicar/estamos sós entre nós mesmos/a palavra é a busca de sentido/busca pelo outro/busca do irmão/busca de algo além/quiçá um deus/a busca do amor/busca do nada e do tudo/qualquer busca que seja ou apenas o caminho/ o que podemos oferecer uns aos outros a não ser nosso eu mesmo esmo de si?/o que oferecer além do nosso não saber?/nossa solidão?/somos sós no silêncio, mas não na caverna/ cada um que passa pinta a parede desta caverna com seus símbolos/como as portas de um banheiro metafísico/este blog é metáfora da caverna de novo entre nós/uma porta de banheiro/onde cada outro/na sua solidão multidão/inscreve pedaços de alma na forma de qualquer coisa/versos/desenhos/fotos/arte/literatura/anti-literatura/desregramento/inventando/inversando reversamento mundo afora dentro de versos reversos solitários de si mesmos/fotografias da alma/deixem suas almas por aqui/ao fim destas frases terei morrido um pouco/mas como diria o poeta, ninguém é pai de um poema sem morrer antes

Jean Louis Battre, 2010

24 de junho de 2013

Domingo, 23/06


*reproduzido do blog FÓSFORO: literatura, música e uma pitada do resto de tudo
http://danbrazil.wordpress.com/2013/06/24/domingo-2306/





Vou fazer uma confissão, estranha para quem me conhece como aficionado e defensor da música brasileira. Um dos meus grupos favoritos de rock progressivo era o King Crimson, na adolescência. Um verso ficou ecoando em minha cabeça, nos últimos dias: “Confusion will be my epitaph”. Caminhei pela avenida Faria Lima na grande passeata dos mais-de-cem-mil, na semana passada. Testemunhei o movimento vitorioso do MPL, nos dias seguintes, ser perigosamente deturpado. Grupos nazi-fascistas, carecas, gente que não milita em nenhuma organização, sem nenhuma vontade de construir algo, apenas de destruir. Da classe A à classe D.

Atravessei Diadema à noite na sexta-feira, dia 21/6, e vi muita coisa nas 3 horas que ali passei. Não era Avenida Paulista, não apareceu na TV, não havia espetacularização nem vontade de ser visto. Fecharam a Imigrantes, ocuparam o centro da cidade, marcharam pelas ruas com frases contra os partidos e governantes. E lembrei de outra frase, de Rogério Sganzerla, do filme O Bandido da Luz Vermelha: “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha.”

Quando estudantes saem gritando na rua “Ei, PT, vai tomar…”, fica nítida a falta de politização do movimento. E politização não é palavrão, vem de “polis”, lá da Grécia, Joãozinho! Claro que o PT, governando o país há dez anos, simboliza o sistema, todos os partidos, a estrutura paquidérmica do Estado. Poderia ser PSDB, PQP, PMDB, qualquer partido que ocupasse o poder nesse momento. Mas é de assustadora burrice ignorar que muitos daqueles jovens estão estudando numa universidade graças aos esforços do… PT! E não falo só do ProUni.

Aí entra o dado da ignorância política (a pior de todas, como dizia Brecht). Mas entra também um dado novo, que é a criação de um ambiente virtual que facilita toda espécie de comunicação (inclusive a mentirosa): a internet. E a globalização de informações, proporcionada por este fantástico meio, vem sem filtro, errática, torrencial. Jovens ocuparam Wall Street. Jovens fazem a primavera árabe. Jovens ocupam praça na Turquia.

Ora, se jovens estão assumindo seu protagonismo em todo o mundo, por que não aqui? No sistema antigo, eu teria de participar de reuniões (ai, que chato!), sindicatos (nem profissão eu tenho, sou terceirizado!), associações (que coisa careta!), partidos (nem pensar, odeio política!). Mas postar uma gracinha no Facebook, ah, isso é comigo mesmo, fácil, fácil! Xingar alguém pela internet? Em vez de discutir, mandar à merda? Tranquilo, e não preciso pedir inscrição, organizar argumentos sólidos, me submeter à maioria. Falo a groselha que quiser, a hora que quiser. E vou juntar os amigos pra ir às ruas e xingar tudo isso que está aí. Isso é democracia, mano!

Parece correto? Para os idiotas, sim. E tem muitos por aí, servindo de estopim para ideias muito perigosas. Fascismo, pra começar. Quem não gosta de partido, queima bandeiras em praça pública e bate em trabalhadores, historicamente, são extremistas de direita. Os extremistas de esquerda gostam de partido, desde que seja o deles. E ambos estão errados.

O que ocorreu na Avenida Paulista, na quinta-feira, 20/6, foi lamentável. Agredir militantes de partido (qualquer partido), rasgar bandeiras, é coisa de fascista. E querer impedir sindicatos, centrais sindicais e movimentos populares de se manifestar é de uma estupidez absurda. Que movimento é esse que não quer trabalhador junto? Que manifesta ódio contra o MST, os sem teto, os sindicatos? Ouvi um amigo dizer que o “novo está nas ruas”. Infelizmente, o ódio e o preconceito são muito velhos, têm a idade da humanidade, e continuam nas ruas. E, vamos falar sério: quem sai às ruas de rosto coberto, é covarde ou mal-intencionado. A juventude dos anos 60, 70 ou 80 mostrava a cara. O pessoal do MPL não esconde o rosto. Anonymous virou sinônimo de covardia. Máscara vendida a 70 centavos em Porto Alegre, São Paulo, Brasília… isso não paga os custos, quem está financiando?



No Facebook, elogiei um prefeito mineiro que saiu do gabinete e foi conversar com a multidão. Pois não é que um cara me chamou de “tendencioso”, porque a notícia dizia que o prefeito era petista? Veja a que ponto chega a irracionalidade. Um gesto corajoso e digno é deturpado pelo partido que o cara representa. Como se não houvesse gente no PT que lutou pela democracia, pela liberdade e pela justiça social nesse país.

Votei na Dilma, como milhões de brasileiros, mas não sou petista de carteirinha. Minha cédula (virtual) contemplou 3 siglas nas ultimas eleições. Todas de esquerda ou centro-esquerda, claro. Respeito muito o valor de certas pessoas cuja trajetória de lutas acompanho de perto. Sei do esforço delas para superar os entraves partidários, burocráticos, governamentais. A máquina pública é lerda, burra e gastadora. Mas não é sem partidos que irá funcionar.

Achei de grande maturidade o MPL ter se retirado das ruas na sexta-feira. Perceberam que o arroz estava queimando, e que o cheiro não era bom. Grupos marchando com a bandeira do Brasil e gritando “Fora, PT!” ou ofendendo o Lula é mau sinal. E os velhos meios de comunicação (TVs e jornais) que estão aí são os mesmos que apoiaram o golpe de 64, que tentaram garfar o Brizola no Rio, que ignoraram o movimento das Diretas até o último momento, que manipularam as eleições de 89 pró-Collor. Golpistas que não se conformam em perder democraticamente nas urnas para essa “gentinha” que governa o país há dez anos. E que avançou muito mais que os governos e partidos apoiados pela velha mídia, por sinal.

Mas a juventude, ah, a juventude! Taí a geração que o PT ajudou a criar, depois que se descolou dos movimentos sociais e aderiu às práticas continuístas dos outros partidos. Uma juventude despolitizada, desmemoriada, egoísta e consumista. Que vê nas ruas a chance de ser protagonista de alguma coisa, qualquer coisa, o brilho fugaz da mediocridade. A nova classe média quer tênis de grife. A velha classe média não suporta a companhia destes intrusos. E A velha elite é o que sempre foi: elitista, excludente, racista, fascista e machista (não que a base da pirâmide não seja, mas por ignorância. O topo da pirâmide é conscientemente). Não se trata do “uso público da razão”, como dizia Kant. Está mais para o velho King Crimson dos anos 70: Knowledge is a deadly friend/ if no one set the rules./ The fate of all mankind I see/ is in the hand of fools. (Conhecimento é um amigo mortal/ Se ninguém estabelecer regras./ O destino de toda a humanidade/ está nas mãos de idiotas.)



E o verso final, repetido várias vezes: But I fear tomorrow I’ll be crying…

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