A Caverna

Esta é a caverna, quando a caverna nos é negada/Estas páginas são as paredes da antiga caverna de novo entre nós/A nova antiga caverna/Antiga na sua primordialidade/no seu sentido essencial/ali onde nossos antepassados sentavam a volta da fogueira/Aqui os que passam se encontram nos versos de outros/os meus versos são teus/os teus meus/os eus meus teus /aqui somos todos outros/e sendo outros não somos sós/sendo outros somos nós/somos irmandade/humanidade/vamos passando/lendo os outros em nós mesmos/e cada um que passa se deixa/essa vontade de não morrer/de seguir/de tocar/de comunicar/estamos sós entre nós mesmos/a palavra é a busca de sentido/busca pelo outro/busca do irmão/busca de algo além/quiçá um deus/a busca do amor/busca do nada e do tudo/qualquer busca que seja ou apenas o caminho/ o que podemos oferecer uns aos outros a não ser nosso eu mesmo esmo de si?/o que oferecer além do nosso não saber?/nossa solidão?/somos sós no silêncio, mas não na caverna/ cada um que passa pinta a parede desta caverna com seus símbolos/como as portas de um banheiro metafísico/este blog é metáfora da caverna de novo entre nós/uma porta de banheiro/onde cada outro/na sua solidão multidão/inscreve pedaços de alma na forma de qualquer coisa/versos/desenhos/fotos/arte/literatura/anti-literatura/desregramento/inventando/inversando reversamento mundo afora dentro de versos reversos solitários de si mesmos/fotografias da alma/deixem suas almas por aqui/ao fim destas frases terei morrido um pouco/mas como diria o poeta, ninguém é pai de um poema sem morrer antes

Jean Louis Battre, 2010

30 de junho de 2013

Manuel Castells e os protestos no Brasil

Entrevista com Manuel Castells




Sociólogo espanhol diz que a condução da crise no Brasil mostra que há esperanças de se reconectar instituições e cidadãos

por Daniela Mendes


PROTESTOS NA AMÉRICA LATINA
“Há um movimento estudantil forte no Chile, embriões
surgindo na Colômbia, no México e no Uruguai”, diz Castells


O sociólogo espanhol Manuel Castells, 68 anos, estava no Brasil participando de uma série de conferências quando os protestos pela redução das tarifas de ônibus começaram, ainda tímidos, em São Paulo. Um dos maiores especialistas da atualidade em movimentos sociais na era da internet, nem ele podia imaginar que o País todo seria tomado por uma onda de passeatas que se transformaria na mais importante manifestação política da sociedade brasileira em 20 anos. “Se querem mudanças, não bastam somente as críticas na internet. É preciso tornar-se visível, desafiar a ordem estabelecida e forçar um diálogo”, afirma o sociólogo. Castells analisou outros movimentos semelhantes, como a Primavera Árabe, o Occupy, nos Estados Unidos, os Indignados, na Espanha, e agora também acompanha a defesa da Praça Taksim, na Turquia. Com extenso e respeitado trabalho sobre o papel das novas tecnologias de informação e comunicação, o sociólogo diz que a grande força desses movimentos é a ausência de líderes e enxerga um esgotamento do modelo atual de representatividade. Autor de 23 livros, ele lança em breve “Redes de Indignação e Esperança – Movimentos Sociais na Era da Internet” (Zahar Editora). Castells foi professor da Universiade de Berkeley, na Califórnia, por 24 anos. Atualmente, vive em Barcelona, na Espanha, de onde falou à ISTOÉ por e-mail, e é professor da Universidade Aberta da Catalunha e da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, nos Estados Unidos.


“A grande força desses movimentos é que eles
são espontâneos, livres, uma celebração da liberdade.
O Occupy deixou novos valores para os americanos”



ISTOÉ - O sr. estava no Brasil quando ocorreram os primeiros protestos em São Paulo. Podia imaginar que eles tomariam essa proporção?

MANUEL CASTELLS - Ninguém podia. Mas o que eu imaginava, e pesquisei durante vários anos, é que a crise de legitimidade política e a capacidade de se comunicar através da internet e de dispositivos móveis levam à possibilidade de que surjam movimentos sociais espontâneos a qualquer momento e em qualquer lugar. Porque razões para indignação existem em todos os lugares.

ISTOÉ - O Brasil reduziu muito a desigualdade social nos últimos anos e tem pleno emprego. Como explicar tamanho descontentamento?

MANUEL CASTELLS - A juventude em São Paulo foi explícita: “Não é só sobre centavos, é sobre os nossos direitos.” É um grito de “basta!” contra a corrupção, arrogância, e às vezes a brutalidade dos políticos e sua polícia.

ISTOÉ - Faz sentido continuar nas ruas se os problemas da saúde e da educação não podem ser resolvidos rapidamente, como o das passagens de ônibus?

MANUEL CASTELLS - Em primeiro lugar, o movimento quer transporte gratuito, pois afirma que o direito à mobilidade é um direito universal. Os problemas de transporte que tornam a vida nas cidades uma desgraça são consequência da especulação imobiliária, que constrói o município irracionalmente, e de planejamento local ruim, por causa da subserviência dos prefeitos e suas equipes aos interesses do mercado imobiliário, não dos cidadãos. Além disso, por causa da mobilização, a presidenta Dilma Rousseff também está propondo novos investimentos em saúde e educação. Como leva muito tempo para obter resultados, é hora de começar rapidamente.

ISTOÉ - A presidenta Dilma agiu corretamente ao falar na tevê à nação, convocar reuniões com governadores, prefeitos e manifestantes para propor um pacto?

MANUEL CASTELLS - Com certeza, ela é a primeira líder mundial que presta atenção, que ouve as demandas de pessoas nas ruas. Ela mostrou que é uma verdadeira democrata, mas ela está sendo esfaqueada pelas costas por políticos tradicionais. As declarações de José Serra (o ex-governador tucano criticou as iniciativas anunciadas pela presidenta) são típicas de falta de prestação de contas dos políticos e da incompreensão deles sobre o direito das pessoas de decidir. Os cargos políticos não são de propriedade de políticos. Eles são pagos pelos cidadãos que os elegem. E os cidadãos vão se lembrar de quem disse o quê nesta crise quando a eleição chegar.

ISTOÉ - Como comparar o movimento brasileiro com os que ocorreram no resto do mundo?

MANUEL CASTELLS - Houve milhões de pessoas protestando dessa forma durante semanas e meses em países de todo o mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de mil cidades foram ocupadas entre setembro de 2011 e março de 2012. A diferença no Brasil é que uma presidenta democrática como Dilma Rousseff e um punhado de políticos verdadeiramente democráticos, como Marina Silva, estão aceitando o direito dos cidadãos de se expressar fora dos canais burocráticos controlados. Esse é o verdadeiro significado do movimento brasileiro: ele mostra que ainda há esperança de se reconectar instituições e cidadãos, se houver boa vontade de ambos os lados.

ISTOÉ - O que é determinante para o sucesso desses movimentos convocados pela internet?

MANUEL CASTELLS - Que as demandas ressoem para um grande número de pessoas, que não haja políticos envolvidos e que não haja líderes manipulando. Pessoas que se sentem fortes apoiam umas às outras como redes de indivíduos, não como massas que seguem qualquer bandeira. Cada um é seu próprio movimento. A brutalidade policial também ajuda a espalhar o movimento através de imagens na internet difundidas por telefones celulares.

ISTOÉ - Por que tantos protestos acabam em saques e depredações? Como evitar que marginais se aproveitem do movimento?

MANUEL CASTELLS - Há violência e vandalismo na sociedade. É impossível preveni-los, embora os movimentos em toda parte tentem controlá-los porque eles sabem que a violência é a força mais destrutiva de um movimento social. Às vezes, em alguns países, provocadores apoiados pela polícia criam a violência para deslegitimar o movimento.

ISTOÉ - Como a polícia deve agir?

MANUEL CASTELLS - Intervir de forma seletiva, com cuidado, profissionalmente, apenas contra os provocadores e os grupos violentos. Nunca, nunca disparar armas letais, e se conter para não bater indiscriminadamente em manifestantes pacíficos. A polícia é uma das razões pelas quais as pessoas protestam.

ISTOÉ - A ausência de líderes enfraquece o movimento?

MANUEL CASTELLS - Pelo contrário, este é o vigor do movimento. Todo mundo é o seu próprio líder.

ISTOÉ - Mas isso não inviabiliza a negociação com a elite política?

MANUEL CASTELLS - Não, a prova disso é que a presidenta Dilma Rousseff se reuniu com alguns representantes do movimento.

ISTOÉ - Qual é a grande força e a grande fraqueza desses movimentos?

MANUEL CASTELLS - A grande força é que eles são espontâneos, livres, festivos, é uma celebração da liberdade. A fraqueza não é deles, a fraqueza são a estupidez e a arrogância da classe política que é insensível às demandas autônomas de cidadãos.

ISTOÉ - No Brasil, partidos políticos foram banidos das manifestações e há quem enxergue nisso o perigo de um golpe. Faz sentido essa preocupação?

MANUEL CASTELLS - Não há perigo de um golpe de Estado. Os corruptos e antidemocráticos já estão no poder: eles são a classe política.

ISTOÉ - Como resolver a crise de representatividade da classe política?

MANUEL CASTELLS - Com reforma política, com uma Assembleia Constituinte e um referendo. A presidenta Dilma Rousseff está absolutamente certa, mas, nesse sentido, ela será destruída por sua própria base.

ISTOÉ - Essas manifestações articuladas através das redes sociais demandam uma nova forma de participação dos cidadãos nos processos de decisão do Estado? Qual?

MANUEL CASTELLS - Sim, esta é a nova forma de participação política emergente em toda parte. Analisei este mundo em meu livro mais recente.

ISTOÉ - O que há em comum entre os movimentos sociais contemporâneos?

MANUEL CASTELLS - Redes na internet, presença no espaço urbano, ausência de liderança, autonomia, ausência de temor, além de abrangência de toda a sociedade e não apenas um grupo. Em grande parte os movimentos são liderados pela juventude e estão à procura de uma nova democracia.

ISTOÉ - O movimento Occupy, nos EUA, foi derrotado pela chegada do inverno. Que legado deixou?

MANUEL CASTELLS - Deixou novos valores, uma nova consciência para a maioria dos americanos.

ISTOÉ - Os Indignados espanhóis conseguiram alguma vitória?

MANUEL CASTELLS - Muitas vitórias, especialmente em matéria de direito de hipoteca e despejos de habitação e uma nova compreensão completa da democracia na maioria da população.

ISTOÉ - Que paralelos o sr. vê entre o movimento turco e o brasileiro?

MANUEL CASTELLS - São muito similares. São igualmente poderosos, mas a Turquia tem um primeiro-ministro fundamentalista islâmico semifascista e o Brasil, uma presidenta verdadeiramente democrática. Isso faz toda a diferença.

ISTOÉ - Acredita que essa onda de protestos se espalhará para outros países da América Latina?

MANUEL CASTELLS - Há um movimento estudantil forte no Chile, e embriões surgindo na Colômbia, no México e no Uruguai.

ISTOÉ - Países que controlam a internet, como a China, estão livres dessas manifestações?

MANUEL CASTELLS - Não, isso é um erro da imprensa ocidental. Há muitas manifestações na China, também organizadas na internet, como a da cidade de Guangzhou (no sul do país), em janeiro passado, pela liberdade de imprensa (o editorial de um jornal foi censurado e isso motivou as primeiras manifestações pela liberdade de expressão na China em décadas. Pelo menos 12 pessoas foram detidas, acusadas de subversão).

ISTOÉ - Como o sr. vê o futuro?

MANUEL CASTELLS - Eu não gosto de falar sobre o futuro, mas acredito que ele será mais brilhante agora porque as sociedades estão despertando através desses movimentos sociais em rede.

28 de junho de 2013

Semelhança

a semelhança está na comparação entre coisas
não estando necessáriamente numa coisa
nem na outra

Salvador Passos

Como vovó já dizia (em tempos de multidão)

Quem não tem colírio
Usa gás lacrimogênio
Minha vó já me dizia
Preu sair com vinegar
Quem não tem colírio
Usa gás lacrimogênio
O vinagre é nosso amigo
Pra não me intoxicar
Quem não tem colírio
Usa gás lacrimogênio
A polícia está na terra
E as balas vão voar
Quem não tem colírio
Usa gás lacrimogênio
Mas o povo tá de boa
E as pedras vão pro ar...

Quem não tem colírio usa gás lacrimogênio
Quem não tem filé toma bala e perde medo
Quem não tem visão fica no planejamento
Uuuuuuuh!...

Quem não tem colírio
Usa gás lacrimogênio
É tanta coisa no menu
Que eu não sei o que jogar
Quem não tem colírio
Usa gás lacrimogênio
Lutero que já dizia:
"Se bateu tem que tomar"
Quem não tem colírio
Usa gás lacrimogênio
Só com a mídia alternativa
É que a turba vai andar
Quem não tem colírio
Usa gás lacrimogênio
E o Governo é ditadura
Que vai ter que recuar...

Quem não tem colírio usa gás lacrimogênio
Quem não tem filé toma bala e perde medo
Quem não tem visão tá do lado do prefeito

Você aí fardado, também é explorado!!!


Cabo da PM afirma ser vítima de perseguição devido à participação em protestos
Condenado em abril por participação de protestos em 2012, policial está detido desde sábado


por HELIO ALMEIDA retirado de O Dia


Rio - O cabo da Polícia Militar, Wagner Jardim Hamude, está detido desde o último sábado no quartel em que trabalha, em Itaperuna, no Noroeste do estado. Ele, que é do 29º BPM, foi condenado a 30 dias de detenção em abril deste ano pela participação na greve de policiais e bombeiros no início de 2012.

leia mais...

2o Encontro de Cultura Libertária

29 de junho, às 15hs, na Cinelândia

 

2o Encontro de Cultura Libertária na rua

Ocupe!
oficina de sabão oficina de stencil oficina de serigrafia rio40caos ocupario banquinha libertária coletivo coyote coletivo zebra cine covil cine under cine abre janela museu de colagens urbanas poly dance ratos di versos marginalidalite coletivo ip us neguin q nao c kala anarco funk lab manguinhos companhia andarilha aliança caótica reciclato dada

façam outras filipetas anexem mais atividades faça você mesma
unidos produzindo a nossa própria cultura.


http://autogestao.org/ai1ec_event/2-encontro-de-cultura-libertaria-na-rua/?instance_id=4

+

RATOS DI VERSOS

o momento é delicado e exige manifestação
ratos saindo das tocas, despertando do sono de décadas para desencadear a festa das ruas, becos e calçadas;
ratos urbanos que se deliciam com a violência de poemas embrulhados em pedras;
ratos caóticos que não se cabem dentro, querem o espaço todo, o público;
ratos acompanhados dos parceiros de rua, dos que falam sozinhos, dos que vivem na chuva;
ratos que trabalham no exercício árduo e vital de roer as estruturas;
ratos nos presenteiam com o buquê de flor de aço, vandalismo na leitura e granadas de palhaço.

http://feest.com.br/ratos-di-versos-e-2-encontro-de-cultura-libertaria-na-cinelandia-rio-de-janeiro-rj-29-06

27 de junho de 2013

Qual o meio mais eficiente para cinquenta pessoas chegarem ao trabalho?

Limites e contradições dos movimentos que estão nas ruas

Em entrevista à Carta Maior, Paolo Gerbaudo, pesquisador do Kings College e especialista em movimentos sociais, fala sobre as semelhanças e diferenças entre os protestos de rua que sacudiram países como Egito, Turquia, Espanha e Brasil. Gerbaudo aponta a força desses movimentos, mas também indica seus limites. "Há uma contradição entre o que se defende como parte de um movimento autônomo que rechaça o Estado, mas que, ao mesmo tempo, depende do Estado para a satisfação de suas demandas. Os movimentos podem ter um efeito autodestrutivo. É o que ocorreu em certa medida no Egito", adverte. Por Marcelo Justo, de Londres.


Londres - Os protestos que sacudiram os sistemas políticos de nações tão díspares como Egito e Brasil nos últimos três anos não provem da estrutura política tradicional, mas sim da rua, de uma tradição movimentista. Na Europa da austeridade, no Brasil de Dilma Rousseff, na Primavera Árabe e na Turquia pró-islâmica de Recep Tayyip Erdogan estes movimentos – chamem-se indignados, Movimento Passe Livre ou Occupy – têm traços organizativos similares, uma mescla de espontaneidade, demandas específicas e escassas consignas programáticas. Em entrevista à Carta Maior, Paolo Gerbaudo, pesquisador do Kings College, especialista em novos movimentos sociais, analisou as expectativas e os limites destes movimentos políticos e seu significado no caso particular do Brasil.

Você vê alguma semelhança entre o que ocorreu no Brasil e na Turquia e os movimentos sociais europeus como os indignados ou o movimento occupy?

Paolo Gerbaudo: Esses movimentos são, ao mesmo tempo, similares e diferentes. A diferença diz respeito ao meio social no qual ocorrem. Os movimentos no Brasil e na Turquia expressam diferentes realidades daquelas da Espanha e dos Estados Unidos. Não se pode postular uma tendência unilinear. Mas há semelhanças que podem ser vistas na maneira pela qual os manifestantes expressam seu protesto, nos símbolos que usam. A máscara do V de Vingança, como símbolo de certo anarquismo antiautoritário, é um exemplo. Ela pode ser vista nos protestos de Dubai, do Egito e em muitos outros lugares. Na capa de um jornal turco apareceu uma foto muito interessante durante as manifestações do Brasil. Na metade da capa, aparecia um manifestante com a máscara do V e a bandeira do Brasil. Na outra metade, havia um manifestante na Turquia com a mesma máscara e a bandeira turca.

Isso mostra outro elemento importante. Ao contrário dos movimentos antiglobalização estes movimentos são nacionais como se vê pela presença das bandeiras. Nos movimentos antiglobalização, há um forte elemento contracultural e de presença de minorias. Um postulado básico era a diversidade de táticas e pertencimentos: anarquistas, feministas, ecologistas eram parte de um movimento que se baseava na ideia de resistência em um momento no qual a maioria sentia que o sistema estava oferecendo coisas suficientes para se manter em conformidade com ele. Não é a situação agora, quando há um forte rechaço do neoliberalismo. Se alguém pergunta a alguém o que pensa dos bancos ou do sistema econômico, a resposta intuitiva, sem usar uma linguagem técnica, é quase unânime de indignação sobre a disfuncionalidade do sistema.

Mas, se na Europa dos anos 60 ou 70 tivesse ocorrido uma austeridade como a que ocorre agora, a resposta teria sido muito mais forte, quase uma situação pré-revolucionária. Uma coisa que surpreende no que está acontecendo é que tenha levado tanto tempo para ocorrer uma resposta. O que é que está faltando?

Paolo Gerbaudo: Estes movimentos não começam com uma identidade centrada em uma ideologia. São lugares de convergência que compartilham a sensação de ser vítima do sistema. Não é um movimento de minorias. Estive na Espanha e uma coisa que me impressionou muito foi que nas assembleias aparecia um especialista em computação dizendo “eu também estou indignado” e, ao seu lado, havia uma aposentada que tinha sofria uma forte redução em sua aposentadoria e que dizia o mesmo, ou seja, que ela também estava indignada. Este “também” é fundamental. Esses movimentos ainda estão lutando para ter uma visão coerente, que não se resuma à oposição de modo geral a tudo que está aí. As Assembleias Populares são uma tentativa de construir esta visão. Em um certo sentido são um passo fundamental, mas é preciso não se iludir, não é o caso de idolatrá-las. As assembleias não são uma solução, nem produzirão resultados. Na Assembleia, reúne-se gente que compartilha as mesmas demandas, mas que têm identidades políticas distintas. Os indignados estão se dividindo agora entre os que têm um perfil liberal-conservador, onde há até um membro da Opus Dei, e os que são autonomistas.

Na Argentina, hoje, pode-se ver um ciclo completo das Assembleias. No início da crise, em 2001-2002, foram muito importantes, mas depois, à medida que a economia se recuperou, foram se diluindo. Hoje são politicamente irrelevantes. Esse não é um problema de todos estes movimentos que dependem totalmente de uma crise?

Paolo Gerbaudo: Totalmente. As Assembleias são uma espécie de sonho anarquista de que é possível funcionar com um sistema de assembleias. Isso se viu na Argentina, na Grécia e na Espanha. Há um extraordinário entusiasmo quando o movimento começa com a ideia de que vão substituir os governos, mas isso não ocorre, em parte porque as assembleias requerem um gasto de energia extraordinariamente grande. Atribuem a Oscar Wilde uma frase que reflete isso: “o socialismo requer demasiadas reuniões nas noites de quarta”. As pessoas se encantam com as reuniões, mas elas acabam se tornando cansativas. As Assembleias são um meio, parte das ferramentas disponíveis para uma mudança. O perigo é acreditarmos que os meios são o importante. É o que diz um dos ideólogos do movimento Occupy Wall Street, David Graeber, o “importante são os meios corretos”. Isso é como dizer: não importa a ideologia, a visão de mundo, importa a democracia.

No entanto, há sinais de ideologia em todos estes movimentos. Em uma carta do movimento passe livre a Dilma Rousseff é dito que “o transporte deve ser público de verdade, acessível a todos, ou seja, um direito universal. Questionar a tarifa é questionar a própria lógica da política tarifária que submete o transporte ao lucro dos empresários e não à necessidade da população”. Essa carta também sustenta que este critério deveria ser aplicado não só ao transporte, mas sim à saúde, à educação, etc. Isso parece uma semente de ideologia.

Paolo Gerbaudo: Exatamente. Mas tem uma limitação. Não apontam um caminho. Por que? Porque recusam que o Estado é o caminho para a resolução do problema. A quem estamos fazendo esta demanda? Ao Estado. No caso do Brasil, isso é claro. Há uma contradição entre o que se defende como parte de um movimento autônomo que rechaça o Estado, mas que, ao mesmo tempo, depende do Estado para a satisfação de suas demandas. Mas, sim, há uma semente de uma ideologia baseada nos direitos sociais, baseada em visões de gente do povo, uma ideologia que põe a ênfase no direito ao espaço cidadão. É uma série de demandas que refletem a estrutura social no movimento, a precária classe média que quer hospitais, espaços públicos, parques, educação, transporte.

No Brasil os cincos pactos propostos por Dilma a governadores e prefeitos se centram nesses pontos: saúde, educação, transporte, reforma fiscal e reforma política. Você acredita que isso pode colocar um fim à crise?

Paolo Gerbaudo: Não sei. Esses movimentos estão criticando o sistema de partidos políticos. Não sei se a cooptação seletiva será suficiente para desarmar estes movimentos. Pode ser. Estas concessões podem pacificar certos setores do movimento. Mas ao mesmo tempo é provável que criem novos partidos que tentem integrar estes elementos.

No Brasil há um paradoxo. Os protestos ocorrem com um governo popular que aumentou as políticas sociais em um país com pleno emprego. Não se dá a crise europeia da austeridade.

Paolo Gerbaudo: Há uma maneira de entender esses protestos que é pensar que se alimentam da privação. Neste caso a lógica seria quanto mais fome mais protestos. Mas pode ocorrer também a lógica inversa. Quanto mais direitos alguém consegue, mais quer. No Brasil, a situação hoje é muito melhor. Mas como diz Rodrigo Nunes, em um artigo na Al Jazeera, há que diferenciar entre crescimento quantitativo e qualitativo. Ganha-se mais, mas os serviços são piores. Não estive no Brasil, mas muita gente me falou que a infraestrutura de transporte e o sistema de saúde são terríveis. Tudo isso afeta a qualidade de vida em um momento no qual o país parecia ir muito bem. Isso ocorre também na Turquia. Pode haver muito desenvolvimento, mas a resposta da população é que não se trata simplesmente de aumentar um critério abstrato de medição como é o PIB, mas sim de viver melhor.

Nestes episódios a reação dos governos e da polícia parece cumprir um papel disparador e aglutinador. Isso é uma parte essencial na aparição de movimentos como estes que, da noite para o dia, passam a dominar toda a agenda política?

Paolo Gerbaudo: Em princípio o que os une é o Estado. No Egito, o que uniu todo o mundo foi a polícia. Todo mundo odeia a polícia. A reação da polícia representa que só há a vara: não há a cenoura. E o Estado está representado na polícia. Não é a polícia usada para manter uma ordem social justa, mas sim a polícia que serve para a injustiça social, um imã que unifica todo mundo.

Uma coisa que estes movimentos trazem à superfície é o problema da representação política. Estes movimentos sociais são uma crítica implícita ou explícita aos partidos políticos tradicionais.

Paolo Gerbaudo: Os partidos sempre existiram. Nos tempos de Roma, existia o partido popular e o dos patrícios. Hoje se critica os partidos políticos, mas a realidade é que eles têm uma base massiva. Mesmo em um país tão apolítico como o Reino Unido, os conservadores têm cerca de três milhões de membros. Isso significa que esses partidos têm certa legitimidade. Inclino-me pela tese de Gramsci, que defende a convivência de movimentos e partidos.

Os movimentos podem ter um efeito autodestrutivo. É o que ocorreu em certa medida no Egito, onde os movimentos rejeitaram toda organização e estrutura e o resultado foi que abriram a porta para a vitória da Irmandade Muçulmana que hoje governa o país com resultados desastrosos. Quanto ao modelo de partido leninista, creio que o desafio é ver como nos movermos para novas formas de representatividade política que consigam ir além do centralismo democrático.

Não se trata simplesmente de uma discussão intelectual. Vê-se isso claramente no movimento na Itália, onde se coloca a criação de novas formas de participação democrática por meio da internet. Tudo isso é bastante problemático porque o movimento tem um terrível paradoxo entre ser participativo e ter um líder paternalista como Beppe Grillo que decide quem está no movimento. É algo que o Partido do Futuro, nascido do movimento dos indignados, está tentando responder na Espanha. Como vamos usar a internet e os meios de comunicação para reconstruir formas de participação que não são possíveis hoje com os partidos?

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

26 de junho de 2013

Violência Policial



Estamos em plena batalha ideológica, que ninguém sabe ainda qual será o resultado.

Brasil de Fato



O significado e as perspectivas das mobilizações de rua

Para João Pedro Stedile, a juventude mobilizada, por sua origem de classe, não tem consciência de que está participando de uma luta ideológica. Assim, estão sendo disputados pelas ideias da direita e da esquerda

25/06/2013


Nilton Viana

da Redação



É hora do governo aliar-se ao povo ou pagará a fatura no futuro. Essa é uma das avaliações de João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) sobre as recentes mobilizações em todo o país. Segundo ele, há uma crise urbana instalada nas cidades brasileiras, provocada por essa etapa do capitalismo financeiro. “As pessoas estão vivendo um inferno nas grandes cidades, perdendo três, quatro horas por dia no trânsito, quando poderiam estar com a família, estudando ou tendo atividades culturais”, afirma. Para o dirigente do MST, a redução da tarifa interessava muito a todo o povo e esse foi o acerto do Movimento Passe livre, que soube convocar mobilizações em nome dos interesses do povo.

Nesta entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Stedile fala sobre o caráter dessas mobilizações, e faz um chamamento: devemos ter consciência da natureza dessas manifestações e irmos todos para a rua disputar corações e mentes para politizar essa juventude que não tem experiência da luta de classes. “A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil”, constata. E faz uma alerta: o mais grave foi que os partidos da esquerda institucional, todos eles, se moldaram a esses métodos. Envelheceram e se burocratizaram. As forças populares e os partidos de esquerda precisam colocar todas as suas energias para ir para a rua, pois está ocorrendo, em cada cidade, em cada manifestação, uma disputa ideológica permanente da luta dos interesses de classes. “Precisamos explicar para o povo quem são os principais inimigos do povo”.



Brasil de Fato – Como você analisa as recentes manifestações que vêm sacudindo o Brasil nas últimas semanas? Qual é a base econômica para elas terem acontecido?




João Pedro Stedile, da coordenação do MST - Foto: José Cruz/ABr

João Pedro Stedile – Há muitas avaliações sobre por que estão ocorrendo estas manifestações. Me somo à análise da professora Ermínia Maricato, que é nossa maior especialista em temas urbanos e já atuou no Ministério das Cidades na gestão Olívio Dutra. Ela defende a tese de que há uma crise urbana instalada nas cidades brasileiras, provocada por essa etapa do capitalismo financeiro. Houve uma enorme especulação imobiliária que elevou os preços dos aluguéis e dos terrenos em 150% nos últimos três anos. O capital financiou – sem nenhum controle governamental – a venda de automóveis para enviar dinheiro para o exterior e transformou nosso trânsito um caos. E, nos últimos dez anos, não houve investimento em transporte público. O programa habitacional Minha casa, minha vida empurrou os pobres para as periferias, sem condições de infraestrutura. Tudo isso gerou uma crise estrutural, em que as pessoas estão vivendo um inferno nas grandes cidades, perdendo três, quatro horas por dia no trânsito, quando poderiam estar com a família, estudando ou tendo atividades culturais. Somado a isso, a péssima qualidade dos serviços públicos, em especial na saúde e mesmo na educação, desde a escola fundamental, ensino médio, em que os estudantes saem sem saber fazer uma redação. E o ensino superior virou loja de vendas de diplomas a prestações, onde estão 70% dos estudantes universitários.



Do ponto de vista político, por que isso aconteceu?

Os 15 anos de neoliberalismo e mais os últimos dez anos de um governo de composição de classes transformou a forma de fazer política em refém apenas dos interesses do capital. Os partidos ficaram velhos em suas práticas e se transformaram em meras siglas que aglutinam, em sua maioria, oportunistas para ascender a cargos públicos ou disputar recursos públicos para seus interesses. Toda a juventude nascida depois das Diretas Já não teve oportunidade de participar da política. Hoje, para disputar qualquer cargo, por exemplo, o de vereador, o sujeito precisa ter mais de um milhão de reais. O de deputado custa ao redor de dez milhões de reais. Os capitalistas pagam e depois os políticos os obedecem. A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil. Mas o mais grave foi que os partidos da esquerda institucional, todos eles, se moldaram a esses métodos. Envelheceram e se burocratizaram. E, portanto, gerou na juventude uma ojeriza à forma dos partidos atuarem. E eles têm razão. A juventude não é apolítica, ao contrário, tanto é que levou a política para as ruas, mesmo sem ter consciência do seu significado. Mas está dizendo que não aguenta mais assistir na televisão essas práticas políticas que sequestraram o voto das pessoas, baseadas na mentira e na manipulação. E os partidos de esquerda precisam reapreender que seu papel é organizar a luta social e politizar a classe trabalhadora. Senão cairão na vala comum da história.



E por que as manifestações eclodiram somente agora?

Provavelmente tenha sido mais pela soma de diversos fatores de caráter da psicologia de massas, do que por alguma decisão política planejada. Somou-se todo o clima que comentei, mais as denúncias de superfaturamento das obras dos estádios, que é são um acinte ao povo. Vejam alguns episódios. A Rede Globo recebeu do governo do estado do Rio de Janeiro e da prefeitura R$ 20 milhões do dinheiro público para organizar o showzinho de apenas duas horas do sorteio dos jogos da Copa das Confederações. O estádio de Brasília custou R$ 1,4 bilhão e não tem ônibus na cidade! A ditadura explícita e as maracutaias que a Fifa/CBF impuseram e que os governos se submeteram. A reinauguração do Maracanã foi um tapa no povo brasileiro. As fotos eram claras, no maior templo do futebol mundial não havia nenhum negro ou mestiço! E aí o aumento das tarifas de ônibus foi apenas a faísca para acender o sentimento generalizado de revolta, de indignação. A gasolina para a faísca veio do governo tucano Geraldo Alckmin, que protegido pela mídia paulista que ele financia, e acostumado a bater no povo impunemente – como fez no Pinheirinho e em outros despejos rurais e urbanos – jogou sua polícia para a barbárie. Aí todo mundo reagiu. Ainda bem que a juventude acordou. E nisso houve o mérito do Movimento Passe Livre, que soube capitalizar essa insatisfação popular e organizou os protestos na hora certa.



Por que a classe trabalhadora ainda não foi à rua?

É verdade, a classe trabalhadora ainda não foi para a rua. Quem está na rua são os filhos da classe média, da classe media baixa, e também alguns jovens do que o Andre Singer chamaria de subproletariado, que estudam e trabalham no setor de serviços, que melhoraram as condições de consumo, mas querem ser ouvidos. Esses últimos apareceram mais em outras capitais e nas periferias. A redução da tarifa interessava muito a todo o povo e esse foi o acerto do Movimento Passe livre, soube convocar mobilizações em nome dos interesses do povo. E o povo apoiou as manifestações. Isso está expresso nos índices de popularidade dos jovens, sobretudo quando foram reprimidos. A classe trabalhadora demora a se mover, mas quando se move afeta diretamente o capital. Coisa que ainda não começou acontecer. Acho que as organizações que fazem a mediação com a classe trabalhadora ainda não compreenderam o momento e estão um pouco tímidas. Mas a classe, como classe, acho que está disposta a também lutar. Veja que o número de greves por melhorias salariais já recuperou os padrões da década de 1980. Acho que é apenas uma questão de tempo, é só as mediações acertarem nas bandeiras que possam motivar a classe a se mexer. Nos últimos dias já se percebe que em algumas cidades menores e nas periferias das grandes cidades já começam a ter manifestações com bandeiras de reivindicações bem localizadas. E isso é muito importante.



Vocês do MST e dos camponeses também não se mexeram ainda...

É verdade. Nas capitais onde temos assentamentos e agricultores familiares mais próximos já estamos participando. Inclusive, sou testemunha de que fomos muito bem recebidos com nossa bandeira vermelha e com nossa reivindicação de reforma agrária, alimentos saudáveis e baratos para todo o povo. Acho que nas próximas semanas poderá haver uma adesão maior, inclusive realizando manifestações dos camponeses nas rodovias e municípios do interior. Na nossa militância está todo mundo doido para entrar na briga e se mobilizar. Espero que também se mexam logo.



Na sua opinião, qual é a origem da violência que tem acontecido em algumas manifestações?

Primeiro vamos relativizar. A burguesia, através de suas televisões, tem usado a tática de assustar o povo colocando apenas a propaganda dos baderneiros e quebra-quebra. São minoritários e insignificantes diante das milhares de pessoas que se mobilizaram. Para a direita, interessa colocar no imaginário da população que isso é apenas bagunça e no final, se tiver caos, colocar a culpa no governo e exigir a presença das Forças Armadas. Espero que o governo não cometa essa besteira de chamar a guarda nacional e as Forças Armadas para reprimir as manifestações. É tudo o que a direita sonha! Quem está provocando as cenas de violência é a forma de intervenção da Policia Militar. A PM foi preparada desde a ditadura militar para tratar o povo sempre como inimigo. E nos estados governados pelos tucanos (SP, RJ e MG), ainda tem a promessa de impunidade. Há grupos direitistas organizados com orientação de fazer provocações e saques. Em são Paulo, atuaram grupos fascistas e leões de chácaras contratados. No Rio de Janeiro, atuaram as milícias organizadas que protegem seus políticos conservadores. E claro, há também um substrato de lumpesinato que aparece em qualquer mobilização popular, seja nos estádios, carnaval, até em festa de igreja, tentando tirar seus proveitos.



PM reprime manifestação em frente ao estádio Mané Garrincha, em Brasília (DF) - Foto: Felipe Canova

Há, então, uma luta de classes nas ruas ou é apenas a juventude manifestando sua indignação?

É claro que há uma luta de classes na rua. Embora ainda concentrada na disputa ideológica. E o que é mais grave, a própria juventude mobilizada, por sua origem de classe, não tem consciência de que está participando de uma luta ideológica. Eles estão fazendo política da melhor forma possível, nas ruas. E aí escrevem nos cartazes: somos contra os partidos e a política? Por isso têm sido tão difusas as mensagens nos cartazes. Está ocorrendo, em cada cidade, em cada manifestação, uma disputa ideológica permanente da luta dos interesses de classes. Os jovens estão sendo disputados pelas ideias da direita e pela esquerda. Pelos capitalistas e pela classe trabalhadora. Por outro lado, são evidentes os sinais da direita muito bem articulada e de seus serviços de inteligência, que usam a internet, se escondem atrás das máscaras e procuram criar ondas de boatos e opiniões pela internet. De repente, uma mensagem estranha alcança milhares de mensagens. E aí se passa a difundir o resultado como se ela fosse a expressão da maioria. Esses mecanismos de manipulação foram usados pela CIA e pelo Departamento de Estado Estadunidense, na Primavera Árabe, na tentativa de desestabilização da Venezuela, na guerra da Síria. É claro que eles estão operando aqui também para alcançar os seus objetivos.



E quais são os objetivos da direita e suas propostas?

A classe dominante, os capitalistas, os interesses do império Estadunidense e seus porta-vozes ideológicos, que aparecem na televisão todos os dias, têm um grande objetivo: desgastar ao máximo o governo Dilma, enfraquecer as formas organizativas da classe trabalhadora, derrotar quaisquer propostas de mudanças estruturais na sociedade brasileira e ganhar as eleições de 2014, para recompor uma hegemonia total no comando do Estado brasileiro, que agora está em disputa. Para alcançar esses objetivos, eles estão ainda tateando, alternando suas táticas. Às vezes, provocam a violência para desfocar os objetivos dos jovens.

Às vezes, colocam nos cartazes dos jovens a sua mensagem. Por exemplo, a manifestação do sábado (22), embora pequena, em São Paulo, foi totalmente manipulada por setores direitistas que pautaram apenas a luta contra a PEC 37, com cartazes estranhamente iguais e palavras de ordem iguais. Certamente, a maioria dos jovens nem sabem do que se trata. E é um tema secundário para o povo, mas a direita está tentando levantar as bandeiras da moralidade, como fez a UDN em tempos passados. Isso que já estão fazendo no Congresso, logo, logo vão levar às ruas. Tenho visto nas redes sociais controladas pela direita, que suas bandeiras, além da PEC 37 são: saída do Renan do Senado; CPI e transparência dos gastos da Copa; declarar a corrupção crime hediondo e fim do foro especial para os políticos. Já os grupos mais fascistas ensaiam Fora Dilma e abaixo-assinados pelo impeachment. Felizmente, essas bandeiras não têm nada a ver com as condições de vida das massas, ainda que elas possam ser manipuladas pela mídia. E, objetivamente podem ser um tiro no pé. Afinal, é a burguesia brasileira, seus empresários e políticos que são os maiores corruptos e corruptores. Quem se apropriou dos gastos exagerados da copa? A Rede Globo e as empreiteiras!



Nesse cenário, quais os desafios que estão colocados para a classe trabalhadora e as organizações populares e partidos de esquerda?

Os desafios são muitos. Primeiro devemos ter consciência da natureza dessas manifestações e irmos todos para a rua disputar corações e mentes para politizar essa juventude que não tem experiência na luta de classes. Segundo, a classe trabalhadora precisa se mover, ir para a rua, manifestar-se nas fábricas, campos e construções, como diria Geraldo Vandré. Levantar suas demandas para resolver os problemas concretos da classe, do ponto de vista econômico e político. Terceiro, precisamos explicar para o povo quem são os principais inimigos do povo. E agora são os bancos, as empresas transnacionais que tomaram conta de nossa economia, os latifundiários do agronegócio e os especuladores. Precisamos tomar a iniciativa de pautar o debate na sociedade e exigir a aprovação do projeto de redução da jornada de trabalho para 40 horas; exigir que a prioridade de investimentos públicos seja em saúde, educação, reforma agrária. Mas para isso, o governo precisa cortar juros e deslocar os recursos do superávit primário, aqueles R$ 200 bilhões que todo ano vão para apenas 20 mil ricos, rentistas, credores de uma dívida interna que nunca fizemos, deslocar para investimentos produtivos e sociais. É isso que a luta de classes coloca para o governo Dilma: os recursos públicos irão para a burguesia rentista ou para resolver os problemas do povo? Aprovar em regime de urgência para que vigore nas próximas eleições uma reforma política de fôlego, que, no mínimo institua o financiamento publico exclusivo da campanha. Direito a revogação de mandatos e plebiscitos populares autoconvocados. Precisamos de uma reforma tributaria que volte a cobrar ICMS das exportações primárias e penalize a riqueza dos ricos, e amenize os impostos dos pobres, que são os que mais pagam. Precisamos que o governo suspenda os leilões do petróleo e todas as concessões privatizantes de minérios e outras áreas publicas. De nada adianta aplicar todo os royalties do petróleo em educação, se os royalties representarão apenas 8% da renda petroleira, e os 92% irão para as empresas transnacionais que vão ficar com o petróleo nos leilões! Uma reforma urbana estrutural, que volte a priorizar o transporte público, de qualidade e com tarifa zero. Já está provado que não é caro, e nem difícil instituir transporte gratuito para as massas das capitais. E controlar a especulação imobiliária. E, finalmente, precisamos aproveitar e aprovar o projeto da Conferência Nacional de Comunicação, amplamente representativa, de democratização dos meios de comunicação. Assim, acabar com o monopólio da Globo, para que o povo e suas organizações populares tenham amplo acesso a se comunicar, criar seus próprios meios de comunicação, com recursos públicos. Ouvi de diversos movimentos da juventude que estão articulando as marchas que talvez essa seja a única bandeira que unifica a todos: abaixo o monopólio da Globo! Mas, para que essas bandeiras tenham ressonância na sociedade e pressionem o governo e os políticos, é imprescindível a classe trabalhadora se mover.



O que o governo deveria fazer agora?

Espero que o governo tenha a sensibilidade e a inteligência de aproveitar esse apoio, esse clamor que vem das ruas, que é apenas uma síntese de uma consciência difusa na sociedade, que é hora de mudar. E mudar a favor do povo. Para isso o governo precisa enfrentar a classe dominante, em todos os aspectos. Enfrentar a burguesia rentista, deslocando os pagamentos de juros para investimentos em áreas que resolvam os problemas do povo. Promover logo as reformas políticas, tributárias. Encaminhar a aprovação do projeto de democratização dos meios de comunicação. Criar mecanismos para investimento pesados em transporte público, que encaminhem para a tarifa zero. Acelerar a reforma agrária e um plano de produção de alimentos sadios para o mercado interno. Garantir logo a aplicação de 10% do PIB em recursos públicos para a educação em todos os níveis, desde as cirandas infantis nas grandes cidades, ensino fundamental de qualidade até a universalização do acesso dos jovens a universidade pública. Sem isso, haverá uma decepção e o governo entregará para a direita a iniciativa das bandeiras, que levarão a novas manifestações, visando desgastar o governo até as eleições de 2014. É hora do governo aliar-se ao povo ou pagará a fatura no futuro.



E que perspectivas essas mobilizações podem levar para o país nos próximos meses?

Tudo ainda é uma incógnita, porque os jovens e as massas estão em disputa. Por isso que as forças populares e os partidos de esquerda precisam colocar todas suas energias, para ir para a rua. Manifestar-se, colocar as bandeiras de luta de reformas que interessam ao povo. Porque a direita vai fazer a mesma coisa e colocar as suas bandeiras conservadoras, atrasadas, de criminalização e estigmatização das ideias de mudanças sociais. Estamos em plena batalha ideológica, que ninguém sabe ainda qual será o resultado. Em cada cidade, em cada manifestação, precisamos disputar corações e mentes. E quem ficar de fora, ficará de fora da historia.

Foto: Marcelo Camargo/ABr

O gigante despertou (só vale bandeira do Brasil)

Não se apaixonem sí mesmos

24 de junho de 2013

Only a pawn in their game

Domingo, 23/06


*reproduzido do blog FÓSFORO: literatura, música e uma pitada do resto de tudo
http://danbrazil.wordpress.com/2013/06/24/domingo-2306/





Vou fazer uma confissão, estranha para quem me conhece como aficionado e defensor da música brasileira. Um dos meus grupos favoritos de rock progressivo era o King Crimson, na adolescência. Um verso ficou ecoando em minha cabeça, nos últimos dias: “Confusion will be my epitaph”. Caminhei pela avenida Faria Lima na grande passeata dos mais-de-cem-mil, na semana passada. Testemunhei o movimento vitorioso do MPL, nos dias seguintes, ser perigosamente deturpado. Grupos nazi-fascistas, carecas, gente que não milita em nenhuma organização, sem nenhuma vontade de construir algo, apenas de destruir. Da classe A à classe D.

Atravessei Diadema à noite na sexta-feira, dia 21/6, e vi muita coisa nas 3 horas que ali passei. Não era Avenida Paulista, não apareceu na TV, não havia espetacularização nem vontade de ser visto. Fecharam a Imigrantes, ocuparam o centro da cidade, marcharam pelas ruas com frases contra os partidos e governantes. E lembrei de outra frase, de Rogério Sganzerla, do filme O Bandido da Luz Vermelha: “Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha.”

Quando estudantes saem gritando na rua “Ei, PT, vai tomar…”, fica nítida a falta de politização do movimento. E politização não é palavrão, vem de “polis”, lá da Grécia, Joãozinho! Claro que o PT, governando o país há dez anos, simboliza o sistema, todos os partidos, a estrutura paquidérmica do Estado. Poderia ser PSDB, PQP, PMDB, qualquer partido que ocupasse o poder nesse momento. Mas é de assustadora burrice ignorar que muitos daqueles jovens estão estudando numa universidade graças aos esforços do… PT! E não falo só do ProUni.

Aí entra o dado da ignorância política (a pior de todas, como dizia Brecht). Mas entra também um dado novo, que é a criação de um ambiente virtual que facilita toda espécie de comunicação (inclusive a mentirosa): a internet. E a globalização de informações, proporcionada por este fantástico meio, vem sem filtro, errática, torrencial. Jovens ocuparam Wall Street. Jovens fazem a primavera árabe. Jovens ocupam praça na Turquia.

Ora, se jovens estão assumindo seu protagonismo em todo o mundo, por que não aqui? No sistema antigo, eu teria de participar de reuniões (ai, que chato!), sindicatos (nem profissão eu tenho, sou terceirizado!), associações (que coisa careta!), partidos (nem pensar, odeio política!). Mas postar uma gracinha no Facebook, ah, isso é comigo mesmo, fácil, fácil! Xingar alguém pela internet? Em vez de discutir, mandar à merda? Tranquilo, e não preciso pedir inscrição, organizar argumentos sólidos, me submeter à maioria. Falo a groselha que quiser, a hora que quiser. E vou juntar os amigos pra ir às ruas e xingar tudo isso que está aí. Isso é democracia, mano!

Parece correto? Para os idiotas, sim. E tem muitos por aí, servindo de estopim para ideias muito perigosas. Fascismo, pra começar. Quem não gosta de partido, queima bandeiras em praça pública e bate em trabalhadores, historicamente, são extremistas de direita. Os extremistas de esquerda gostam de partido, desde que seja o deles. E ambos estão errados.

O que ocorreu na Avenida Paulista, na quinta-feira, 20/6, foi lamentável. Agredir militantes de partido (qualquer partido), rasgar bandeiras, é coisa de fascista. E querer impedir sindicatos, centrais sindicais e movimentos populares de se manifestar é de uma estupidez absurda. Que movimento é esse que não quer trabalhador junto? Que manifesta ódio contra o MST, os sem teto, os sindicatos? Ouvi um amigo dizer que o “novo está nas ruas”. Infelizmente, o ódio e o preconceito são muito velhos, têm a idade da humanidade, e continuam nas ruas. E, vamos falar sério: quem sai às ruas de rosto coberto, é covarde ou mal-intencionado. A juventude dos anos 60, 70 ou 80 mostrava a cara. O pessoal do MPL não esconde o rosto. Anonymous virou sinônimo de covardia. Máscara vendida a 70 centavos em Porto Alegre, São Paulo, Brasília… isso não paga os custos, quem está financiando?



No Facebook, elogiei um prefeito mineiro que saiu do gabinete e foi conversar com a multidão. Pois não é que um cara me chamou de “tendencioso”, porque a notícia dizia que o prefeito era petista? Veja a que ponto chega a irracionalidade. Um gesto corajoso e digno é deturpado pelo partido que o cara representa. Como se não houvesse gente no PT que lutou pela democracia, pela liberdade e pela justiça social nesse país.

Votei na Dilma, como milhões de brasileiros, mas não sou petista de carteirinha. Minha cédula (virtual) contemplou 3 siglas nas ultimas eleições. Todas de esquerda ou centro-esquerda, claro. Respeito muito o valor de certas pessoas cuja trajetória de lutas acompanho de perto. Sei do esforço delas para superar os entraves partidários, burocráticos, governamentais. A máquina pública é lerda, burra e gastadora. Mas não é sem partidos que irá funcionar.

Achei de grande maturidade o MPL ter se retirado das ruas na sexta-feira. Perceberam que o arroz estava queimando, e que o cheiro não era bom. Grupos marchando com a bandeira do Brasil e gritando “Fora, PT!” ou ofendendo o Lula é mau sinal. E os velhos meios de comunicação (TVs e jornais) que estão aí são os mesmos que apoiaram o golpe de 64, que tentaram garfar o Brizola no Rio, que ignoraram o movimento das Diretas até o último momento, que manipularam as eleições de 89 pró-Collor. Golpistas que não se conformam em perder democraticamente nas urnas para essa “gentinha” que governa o país há dez anos. E que avançou muito mais que os governos e partidos apoiados pela velha mídia, por sinal.

Mas a juventude, ah, a juventude! Taí a geração que o PT ajudou a criar, depois que se descolou dos movimentos sociais e aderiu às práticas continuístas dos outros partidos. Uma juventude despolitizada, desmemoriada, egoísta e consumista. Que vê nas ruas a chance de ser protagonista de alguma coisa, qualquer coisa, o brilho fugaz da mediocridade. A nova classe média quer tênis de grife. A velha classe média não suporta a companhia destes intrusos. E A velha elite é o que sempre foi: elitista, excludente, racista, fascista e machista (não que a base da pirâmide não seja, mas por ignorância. O topo da pirâmide é conscientemente). Não se trata do “uso público da razão”, como dizia Kant. Está mais para o velho King Crimson dos anos 70: Knowledge is a deadly friend/ if no one set the rules./ The fate of all mankind I see/ is in the hand of fools. (Conhecimento é um amigo mortal/ Se ninguém estabelecer regras./ O destino de toda a humanidade/ está nas mãos de idiotas.)



E o verso final, repetido várias vezes: But I fear tomorrow I’ll be crying…

23 de junho de 2013

Por que protestam contra a Copa

Brasil de Fato



Em Belo Horizonte, Brasília, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba e Fortaleza protestos contra a Copa se misturam às bandeiras por participação política, transporte e serviços públicos de qualidade. Veja aqui 7 razões para que a festa esteja se transformando em manifestação



20/06/2013





Marina Amaral


A Pública



Custo x Legado

Já foram gastos 27,4 bilhões de reais na Copa e a previsão atual é de custo total de 33 bilhões, uma quantia que se aproxima do total do orçamento federal em educação para este ano: 38 bilhões de reais. Uma priorização de recursos que a população questiona nas ruas, assim como a concentração do dinheiro público na construção de estádios, em muitos casos, como em Manaus e Cuiabá, “elefantes brancos” sem futuro aproveitamento.

Além disso, as obras de mobilidade urbana – apresentadas pelo governo como o principal legado para as cidades-sede – atualmente orçadas em 12 bilhões de reais – privilegiam os acessos viários para carros (viadutos, alargamentos de avenidas) e a rota aeroportos-hotéis-estádios que não é necessariamente a prioritária para a mobilidade urbana no cotidiano das cidades. Um exemplo claro é Itaquera, onde as obras reivindicadas pela comunidade foram suspensas enquanto se investe a todo vapor nas obras de acesso ao estádio. Promessas em investimento em transporte público, como a construção do metrô de Salvador e o Monotrilho da linha Ouro em São Paulo foram retiradas da Matriz de Responsabilidades (o orçamento federal para a Copa) e o transporte público chegou a ser prejudicado no Rio de Janeiro, onde os moradores e comércio sofrem com a falta do tradicional bondinho – que não circula desde 2011 – depois de um acidente denunciado pelos moradores como resultante de um projeto equivocado de modernização (que teve de ser refeito e ainda não está pronto)

Por fim, as obras de mobilidade urbana são as principais responsáveis pelas remoções de comunidades, ameaças ambientais e perda de equipamentos públicas.

Remoções violentas e demolições indesejáveis

Os movimentos sociais contabilizam 170 mil pessoas ameaçadas ou já removidas e/ou recebendo indenizações de 3 a 10 mil reais, para os que comprovam a propriedade do lote, e bolsas-aluguel de menos de 1 salário mínimo para os demais. Não raro os despejos são feitos de forma violenta, sem transparência nem diálogo entre poder público e moradores. No morro da Providência no Rio de Janeiro, por exemplo, as pessoas descobriram que seriam expulsas quando suas casas apareciam marcadas, sem nenhuma negociação prévia.

Além das casas, os moradores perdem também suas comunidades, em alguns casos centenárias, amigos, vizinhos, tradições. Via de regra são enviados para longe de suas raízes e cotidiano e perdem a infraestrutura urbana dos bairros mais centrais, caso por exemplo, da ameaçada comunidade da Paz, em Itaquera, São Paulo. As indenizações recebidas são muito menores que os preços de aluguéis e imóveis nos bairros atingidos pelas obras da Copa, forçando a ida para longe também dos que podem decidir seu rumo. A especulação imobiliária em torno dos estádios e melhorias feitas para tornar a cidade mais atraente para os turistas expulsam moradores que seriam beneficiados pela evolução, dos morros Rio de Janeiro à zona leste de São Paulo, agravando o problema extenso de carência de moradias nas grandes cidades brasileiras.

O patrimônio social e cultural também foi prejudicado, como mostrou a expulsão de representantes das etnias indígenas que ocupavam o antigo Museu do Índio, no Rio de Janeiro,reconhecido pelos antropólogos como marco da relação entre índios e brancos no Brasil, o histórico estádio do Maracanã foi descaracterizado por uma reforma que já custou 1,2 bilhões aos cofres públicos e acompanhado da destruição de equipamentos públicos esportivos, como o ginásio Célio Barros para construir estacionamentos e acessos viários em torno do estádio.


Legislação de exceção para cumprir as exigências da FIFA

Policiais tentam impedir avanço de protesto ao estádio Castelão, em Fortaleza, durante jogo da seleção brasileira contra a do México - Foto: Gabriel Gonçalves.
Desde que o Brasil fechou o acordo com a FIFA, o governo vem criando leis por Medidas Provisórias para assegurar os interesses da FIFA e de seus parceiros (Lei Geral da Copa), permitir que Estados e Municípios se endividem além do exigido pela Lei de Responsabilidade Fiscal para investir em obras da Copa, abreviar licenciamento ambiental e dispensar licitações.

Alguns exemplos do prejuízo que essa legislação traz para a população:

- as zonas de exclusão: a FIFA estabelece uma área em um raio de até 2 quilômetros em volta do estádio - a zona de exclusão - como seu território. Ali controla a circulação de pessoas, a venda de produtos, fiscaliza o uso de marcas que considera suas – o próprio nome do evento Copa 2014 e o mascote, entre outros – protege a exclusividade de venda dos produtos de seus patrocinadores – da cerveja ao hambúrguer – e se encarrega da segurança. Segundo a ONG Streetnet, na África do Sul 100 mil ambulantes perderam a fonte de renda durante a Copa e situação semelhante – caracterizada como violação ao direito ao trabalho e perseguição por trabalhar em espaço público – está prevista no Brasil onde mais de mil ambulantes já perderam postos de trabalho por causa das obras da Copa, principalmente em Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Fortaleza e Porto Alegre

- isenções fiscais, exceções legais: a criação de punições e tipificação de crimes para proteger os interesses da FIFA e seus parceiros – que pune por exemplo, quem utiliza símbolos da Copa para promover eventos em bares e restaurantes ou que fere a exclusividade das marcas da FIFA – é um dos abusos permitidos pela Lei Geral da Copa, que também isenta de impostos uma série de entidades e indivíduos indicados pela FIFA prejudicando as receitas do país que arca até com toda a responsabilidade jurídica em acidentes/incidentes, danos e processos, incluindo o pagamento dos advogados da FIFA e parceiros.

- obras estaduais e municipais faraônicas e/ou contra os interesses da população: o caso mais gritante é da construção de um Aquário em Fortaleza , sem laudo arqueológico e com diversas falhas no EIA-Rima, a um custo superior a 280 milhões de reais enquanto o Ceará vive uma de suas piores secas. Em São Paulo, no Rio de Janeiro, Salvador e outras cidades-sede os governos estaduais e municipais também participam do investimento em dinheiro público em estádios que serão posteriormente explorados pela iniciativa privada . Em Natal, a construção do estádio põe em risco as dunas, e em Recife uma área até então preservada está sendo completamente alterada para instalar equipamentos relacionados à Copa, como hotéis e centros de apoio ao estádio.

- superfaturamento, custos elevados e desvios de recursos públicos: as sete maiores empreiteiras do Brasil – que são também as principais doadoras de recursos eleitorais para os principais partidos e políticos – beneficiaram-se da Lei 12.462/2011 RDC – Regime Diferenciado de Contratações Públicas – para determinar preços, aumentá-los através de cláusulas e aditivos frequentemente justificados pelo ritmo das obras e pela reformulação de projetos equivocados. O TCU já comprovou irregularidades na arena Amazonas, na reforma do Maracanã, na construção do estádio em Brasília, no aeroporto de Manaus. O Ministério Público do Distrito Federal entrou com ação contra superfaturamento e outras irregularidades no VLT de Brasília.


Violação ao direito à informação e à participação política

Os movimentos sociais denunciam no Dossiê de Violações de Direitos Humanos que também o direito à informação e à participação nos processos decisórios são “atropelados por autoridades FIFA, COI e comitês locais” porque “projetos associados à Copa e às Olimpíadas não são objeto de debate público”. A falta de informações e debate sobre os projetos, que não raro desrespeitam os planos diretores aprovados nas câmaras municipais, que atingem comunidades e bairros é denunciada por movimentos sociais em todas as cidades-sede. Associações de moradores também se queixam de audiências públicas pró-forma e da inexistência de mecanismos mais eficazes para a participação da sociedade nos projetos que atingem suas casas, bairros, cidades.


Recrudescimento da violência policial e dos seguranças da FIFA


O orçamento da área de segurança da Copa prevê investimentos de R$ 1,8 bilhão do governo federal. O Ministério da Justiça declara ter investido 562 milhões de reais até agora e o Ministério da Defesa, a 630 milhões de reais para gastos relativos ao evento. Por um total de 49,5 milhões, o governo federal fechou a compra de milhares de armamentos não-letais da empresa Condor – a mesma que forneceu as bombas usadas contra manifestantes – da Turquia às capitais brasileiras– para a Copa das Confederações, em andamento, e a Copa do Mundo de 2014.

O contrato, com vigência até 31 de dezembro de 2014, prevê o fornecimento de 2,2 mil kits não-letais de curta distância (sprays de pimenta, granadas lacrimogêneas com chip de rastreabilidade, granadas de efeito moral para uso externo e indoors e granadas explosivas de luz e som); 449 kits não-letais de curta distância com cartuchos de balas de borracha e cartuchos de impacto expansível (balas que se expandem em contato com a pele, evitando a perfuração); 1,8 mil armas elétricas para lançamentos dardos energizados (as pistolas “taser”), e mais 8,3 mil granadas de efeito moral, 8,3 mil granadas de luz e som, 8,3 mil granadas de gás lacrimogêneo fumígena tríplice e 50 mil sprays de pimenta. Dentro dos estádios e na zona de exclusão a segurança é privada, escolhida e orientada pela Fifa mas paga pelo governo federal. Nas recentes manifestações no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte a quantidade de equipamentos e munição chamou a atenção, exatamente por já estar sendo usado o material de segurança da Copa das Confederações.

Além da legislação de exceção abordada no item anterior – que inclui a tipificação de novos crimes para proteger marcas e exclusividade dos parceiros da FIFA e a zona de exclusão – o PL 728/2011, no fim de sua tramitação, inclui a tipificação do crime de “terrorismo”, algo que não existe na nossa legislação desde a ditadura militar, e prevê penas duras para quem promover “o pânico generalizado” . Para os movimentos sociais, o texto do projeto, bastante vago, pode criminalizar as manifestações desde que essas sejam enquadradas como causadoras de pânico generalizado.

Elitização dos estádios e dos ingressos para os jogos da Copa

As reformas nos estádios brasileiros para seguir as recomendações da FIFA reduziram ou extinguiram lugares populares nos estádios, ampliando a área de camarotes e lugares marcados, principalmente no Maracanã e no Mineirão, que perderam quase 50% da capacidade. Como resultado, o preço dos ingressos subiram mesmo nos jogos comuns – passando de 40 a 60 reais cobrados nas arquibancadas para preços mínimos de 160 reais no Maracanã, por exemplo.

Quanto aos ingressos para a Copa 2014, enquanto 200 mil pessoas assistiram a partida final contra o Uruguai em 1950 no Maracanã, apenas 74 mil ingressos serão colocados à venda para a final no mesmo estádio em 2014. Em 1950, 80% dos ingressos eram populares (arquibancada e geral) extintas para dar lugar a assentos alcochoados nas área Vips.

A FIFA também impôs padrões de comportamento aos torcedores completamente avessos à cultura da alegria e da participação da torcida brasileira de futebol, com platéia sentada, sem as coreografias, as baterias percurssivas, o baile das bandeiras a que estamos acostumados.

Incremento ao tráfico e violência contra mulheres, adolescentes e crianças

Fortaleza, Natal e Salvador estão entre os principais destino do turismo sexual, que traz homens para o país em busca de mulheres, travestis, adolescentes e crianças, o que deve se agravar com a Copa. O Esplar, ONG que trabalha com mulheres cearenses e participa da Articulação dos Comitês Populares da Copa, lançou em parceria com a Fundação Heinrich Boll, um folheto informativo em um DVD para chamar a atenção para o esperado aumento do turismo sexual na Copa. Segundo a advogada Magnolia Said, que coordenou a produção desse material, já se detectou um aumento de tráfico interno (do interior para as capitais do Nordeste) de mulheres e adolescentes por causa dos preparativos da Copa do Mundo. Reportagem da agência Pública também detectou o trânsito de travestis de Fortaleza para São Paulo para colocar próteses de silicone em troca de trabalho gratuito para as cafetinas que bancam as cirurgias.

21 de junho de 2013

Catarses

Direita radical tenta pegar carona nos protestos pela redução da tarifa

Brasil de Fato

Estado:São Paulo



Enquanto alguns querem impor suas pautas em protestos, juventude que se diz “apartidária” corre o risco de desviar-se da luta central ao atacar partidos

19/06/2013


José Francisco Neto,

da Reportagem


Durante o quinto e o sexto protesto contra o aumento das tarifas do transporte público em São Paulo, foi notável a heterogeneidade de reivindicações. A pauta central do Movimento Passe Livre (MPL), que pede a redução das tarifas, parece estar perdendo a centralidade. Surgem em meio às manifestações cartazes com dizeres como: “Contra a corrupção” e “Impeachment à Dilma”.

Na segunda-feira (17) e na terça-feira (18), a reportagem do Brasil de Fato constatou uma sensível diferença nos atos comparando-os com a semana anterior. Os gritos não eram os mesmos puxados pelos movimentos sociais. As bandeiras dos partidos não foram mais estiadas. Muitas, inclusive, foram impedidas de serem levantadas por um grupo de pessoas que pediam “Sem partido!”, com bandeiras do Brasil nas mãos e cantando o hino nacional.

A reportagem passava ao lado da prefeitura de São Paulo quando presenciou um grupo de pessoas que segurava uma bandeira vermelha de um movimento sem-teto. Um rapaz, de aparentemente 27 anos, ao ver a bandeira, disse irritado: “que merda é essa? Só faltava ter comunista aqui agora”.



Na segunda-feira, militantes da Juventude do PT quase foram agredidos por tentarem erguer a bandeira do partido. Já pessoas ligadas ao PSTU não conseguiram recuar e foram violentados por alguns manifestantes. "Começaram com gritos de longe e depois vieram para cima dizendo que nenhum partido os representava e que os partidos deveriam sair do ato. Aos socos e ponta-pés as bandeiras do PSTU foram arrancadas das mãos dos militantes e rasgadas por aqueles manifestantes que comemoraram logo depois", conta uma manifestante que presenciou a cena.

Presente nos atos, o cientista social Bruno Casalotti lembra que ser contra os partidos é corroborar com o fascismo. "A existência de partidos é fundamental para a garantia da democracia. É ótimo que eles estejam nos atos, inclusive a juventude do PT", destaca.

União popular é o que conclama Casalotti. "Quer pressionar o Haddad a baixar a tarifa? Vamos fazer isso junto com a juventude do próprio partido dele que temos mais força! PSTU, PSOL, todos têm o direito de estarem nos atos e levantarem suas bandeiras", reforça.

Cartaz distribuído na manifestação - Foto: Bruno Casalotti

Somando-se ao debate, o professor de sociologia e história do Instituto Federal de Educação e Ciência, Kennedy Ferreira, ressalta que em uma manifestação democrática cabem todas as bandeiras, "em especial aquelas que sempre estiveram ao lado dos mais desfavorecidos".



Direita radical


Fatos inusitados não presenciados nas primeiras manifestações também foram registrados pelo cientista social Bruno Casalotti. Ele disse ao Brasil de Fato que, enquanto caminhava junto a manifestação, uma menina, de aproximadamente 17 anos, entregou dois panfletos a ele com dizeres do tipo “Prisão rural perpétua, não queremos sustentar bandidos” ou “eliminação da idade mínima penal, independentemente da idade, o infrator deve ser punido". Ao ser questionada sobre a origem dos panfletos, ela respondeu: “um cara me deu esse bolinho pra distribuir”.

Casalotti considera que os dizeres presentes nesses panfletos são pautas da direita mais reacionária do Brasil. “A existência de um panfleto como esse demonstra que há setores que estão interessados em desvirtuar as motivações iniciais dos protestos, e o pior é que são setores escusos, porque nem assinar o panfleto eles assinaram”, reforça.

Foto do topo: Reprodução/Instagram

Charge Latuff

Tão dando bandeira!




Tão dando bandeira!

Nunca andaram de ônibus
E já querem sentar na janelinha

E eu? Não posso mais tomar partido?

Salvador Passos

SP: MPL deixa ato e diz que direita quer dar 'ares fascistas' a protestos

Do Terra




Em nota, Movimento Passe Livre criticou hostilidade a militantes de partidos e rejeitou oportunismo

O Movimento Passe Livre (MPL), que organizou os protestos contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, deixou a manifestação que ocorre na noite desta quinta-feira na capital paulista. Segundo o professor Lucas Monteiro, 29 anos, integrante do MPL, o movimento “não abandonou” os protestos. "A gente saiu porque a manifestação cumpriu com a obrigação dela, que era de comemorar a redução da tarifa."

“O MPL agora vai sentar e fazer uma avaliação, mas com certeza vai ter mais manifestações pela tarifa zero, só não sei dizer onde nem quando. Fiquem ligados no perfil do MPL no Facebook”, disse Pedro Bernardo, também militante do MPL.

Pedro criticou alguns grupos que estavam na manifestação. “Militantes de extrema direita querem dar ares facistas a esse movimento”, afirmou. Para Lucas, "a hostilidade sempre existiu".

"Mas hoje é dia de vitória. O MPL deu o exemplo, colocou o povo para participar do processo democrático”, disse Pedro. “Se chamar o povo vem junto, parabéns para o povo.”

O movimento repudiou os atos de violência direcionados a essas organizações durante a manifestação. No fim do dia, em nota, o MPL afirmou que "desde os primeiros protestos, essas organizações tomaram parte na mobilização. Oportunismo é tentar excluí-las da luta que construímos juntos".

Durante os atos, portas de agências bancárias e estabelecimentos comerciais foram quebrados, ônibus, prédios, muros e monumentos pichados e lixeiras incendiadas. Os manifestantes alegam que reagem à repressão da polícia, que age de maneira truculenta para tentar conter ou dispersar os protestos.

Mais de 250 pessoas foram presas durante as manifestações, muitas sob acusação de depredação de patrimônio público e formação de quadrilha. A mobilização ganhou força a partir do dia 13 de junho, quando o protesto foi marcado pela repressão opressiva. Bombas de gás lacrimogêneo lançadas pela Polícia Militar na rua da Consolação deram início a uma sequência de atos violentos por parte das forças de segurança, que se espalharam pelo centro.

O cenário foi de caos: manifestantes e pessoas pegas de surpresa pelo protesto correndo para todos os lados tentando se proteger; motoristas e passageiros de ônibus inalando gás de pimenta sem ter como fugir em meio ao trânsito; e vários jornalistas, que cobriam o protesto, detidos, ameaçados ou agredidos.

As agressões da polícia repercutiram negativamente na imprensa e também nas redes sociais. Vítimas e testemunhas da ação violenta divulgaram relatos, fotografias e vídeos na internet. A mobilização ultrapassou as fronteiras do País e ganhou as ruas de várias cidades do mundo. Dezenas de manifestações foram organizadas em outros países em apoio aos protestos em São Paulo e repúdio à ação violenta da Polícia Militar. Eventos foram marcados pelas redes sociais em quase 30 cidades da Europa, Estados Unidos e América Latina.

As passagens de ônibus, metrô e trem da cidade de São Paulo passaram a custar R$ 3,20 no dia 2 de junho. A tarifa anterior, de R$ 3, vigorava desde janeiro de 2011. Segundo a administração paulista, caso fosse feito o reajuste com base na inflação acumulada no período, aferido pelo IPC/Fipe, o valor chegaria a R$ 3,40. No dia 19 de junho, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Fernando Haddad (PT) anunciaram a redução dos preços das passagens de ônibus, metrô e trens metropolitanos para R$ 3. O preço da integração também retornou para o valor de R$ 4,65 depois de ter sido reajustado para R$ 5.

20 de junho de 2013

MPL comemora vitória e debate próximos passos

São Paulo - Encerrada com uma grande vitória, o cancelamento do aumento dos preços do transporte público na cidade de São Paulo, a mobilização iniciada pelo pequeno coletivo de jovens, com idade entre 20 e 25 anos, que se transformou num grande fenômeno de massas e se espraiou pelas outras capitais do país, termina com desafios maiores ainda. Apesar do grande apoio de partidos de esquerda – inclusive de setores dentro do próprio Partido dos Trabalhadores – e de movimentos sociais, o saldo da mobilização é do Movimento Passe Livre. O MPL continua o grande protagonista desta história e tem que dar respostas rápidas ao enorme contingente de jovens que colocou nas ruas (a maioria deles num primeiro ato político), para impedir a apropriação dessa energia contestadora que o movimento catalisou nas últimas semanas pela direita.

Esta convicção foi o saldo de reuniões que envolveram os integrantes do grupo desde que o movimento contra o aumento do preço do transporte público tomou a dimensão de movimento de massas, na última semana, com partidos de esquerda e movimentos sociais.

No final do dia de ontem (19), quando integrantes do MPL se reuniam com blogueiros, jornalistas que militam fora da órbita da grande mídia, o empresário de comunicação Joaquim Palhares (da Carta Maior) e Sérgio Amadeu, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o prefeito Fernando Haddad (PT) anunciaram a redução das tarifas de ônibus e metrô na capital. Quase que simultaneamente, o MPL tinha notícia da vitória do movimento também no Rio de Janeiro.

Na avaliação feita durante o encontro, o professor de História Lucas Oliveira, o Legume, definiu o MPL como um movimento social de esquerda, reafirmou as características apartidárias do movimento – que não se traduz em antipartidarismo, inclusive porque essa posição está em desacordo com a história do movimento, que sempre manteve ligações com partidos de esquerda.

A análise que integrantes do MPL e pessoas próximas ao movimento fizeram, nessa reunião, é que a massificação do movimento trouxe um contingente de jovens que não tinham história de participação política, à semelhança dos “cara-pintadas” do movimento pelo impeachment do presidente Fernando Collor, em 1991, e que não se sente representado por eles. Daí a reação à militância de partidos de esquerda que foram para as ruas e levaram suas bandeiras. Os jovens do movimento também constatam que atraíram a adesão de grupos mais violentos, que eram extremamente minoritários, mas cuja ação nas manifestações exigiria um trabalho de contenção que o MPL não estava aparelhado para fazer, até pelo exíguo número de integrantes. Registraram também a convicção de que atuaram, durante todo o movimento, agentes provocadores, provavelmente da polícia.

O que vem depois, todavia, é até mais complicado para o “coletivo” de São Paulo – que, segundo Oliveira, não tem uma articulação obrigatória com os movimentos que atuaram nas outras cidades do país nas últimas semanas. “Em algumas cidades nem existia Movimento Passe Livre”, contou.

Não existe uma articulação nacional do movimento; houve uma grande identificação dos jovens com o MPL, que não se transfere aos partidos de esquerda; e existe uma visível articulação de grupos de direita para tentar capitalizar o movimento, em especial nas redes sociais. Amadeu informou, durante o encontro, que na última semana os grupos anônimos de direita assumiram um enorme protagonismo nas redes sociais.

O MPL assume, como tarefa, manter a tarefa de “conversar” com esses jovens – e, embora seja deles cobrada a “politização” de suas bandeiras, existe uma convicção forte no grupo de que devem manter a agenda ligada ao transporte público e à questão da mobilidade urbana. Eles se articulam junto com o vereador Nabil Bonduki para apresentar um projeto instituindo o passe livre na cidade de São Paulo. Pensam também numa articulação nacional em torno da proposta de emenda constitucional de autoria da deputada Luiza Erundina, que define o transporte público como um direito de cidadania.

Leia, abaixo, a nota do Movimento Passe Livre, divulgada após a vitória em São Paulo:

“A cidade não esquecerá o que viveu nas últimas semanas. Aprendemos que só a luta dos de baixo pode derrotar os interesses impostos de cima. A intransigência dos governantes teve de ceder às ruas tomadas, às barricadas e à revolta da população.

Não foi o Movimento Passe Livre, nem nenhuma outra organização, que barrou o aumento. Foi o povo.

O povo constrói e faz a cidade funcionar a cada dia. Mas não tem direito de usufruir dela, porque o transporte custa caro. A derrubada do aumento é um passo importante para a retomada e a transformação dessa cidade pelos de baixo.

A caminhada do Movimento Passe Livre, que não começa nem termina hoje, continua rumo a um transporte público sem tarifa, onde as decisões são tomadas pelos usuários e não pelos políticos e pelos empresários. Se antes eles diziam que baixar a passagem era impossível, a revolta do povo provou que não é. Se agora eles dizem que a tarifa zero é impossível, nossa luta provará que eles estão errados.

Por uma vida sem catracas!

Movimento Passe Livre São Paulo”

Maria Inês Nassif

Dica pra quem acordou agora

"atenção para o refrão".

1 - Já haviam muitas pessoas acordadas antes de tu acordar

2 - Procure saber quem eram estas pessoas

3 - Cantar o hino do Rio Grande do Sul ou do Brasil nas marchas é um tanto quanto fascista

4 - A violência do estado e do capital é infinitamente superior aos vidros quebrados e ônibus incendiados

5 - Cuidado tem Nazi e P2 na volta

6 - Não tenha medo, esta é a arma da policia

7 - Transporte não é para ser produto

8 - Não se aprende a lutar de um dia para o outro (seja cauteloso com ideias fixas, do tipo paz e amor, sem violência, fora dilma, e demais hashtag´s)

9 - Não deixe a mídia pautar NOSSAS reivindicações

10 - Seja solidário (divida o vinagre)

11 - Fotografe sem medo todas as covardias

12 - Policial é um cidadão como todos, mas ele é o braço armado daqueles que estão no poder, não tente dialogar

13 - Partidos como PSol e PSTU pautam estas lutas a muito tempo, não queiram tirar as bandeiras deles, eles ajudaram a construir o movimento

14 - Se você é artista, tente colocar sua arte em dialogo com o que está acontecendo nas ruas, na rua.

Por hora é isso,

Chacal

18 de junho de 2013

Datena e o passe livre

Fim de ato

Hoje a manifestação contou com MUITA gente na Rio Branco com todas as alas que um carnaval merece: dos partidos, dos black blocs, dos caras pintadas, dos nacionalistas, da fanfarra, dos observadores e assim por diante. Tudo muito cordial e pacífico. Não havia um único policial no percurso, ao menos fardado; no máximo em uma ou outra transversal e mesmo assim à distância. Nestes termos, nem fazia sentido ter conflito. A guinada na Santa Luzia, seguida por aquela na presidente Antônio Carlos mudou o clima. Os policiais, assim como os skinheads e black blocs, já se faziam presentes de forma ostensiva e a tática de confronto estava armada. Ao chegar na Alerj os policiais tinham fechado a escadaria e estavam a postos com carros na frente do prédio. Nos primeiros sinais de multidão próximo à Alerj veio o sinal de que havia algum script não declarado: as viaturas policiais partiram para outra esquina (sabe-se lá qual) com uma parte do contingente. E não voltaram até o fim da manifestação. Manteve-se apenas o cordão de isolamento com cerca de 80 policiais. A mim pareceu que o circo estava armado. Que já tinham combinado com os russos. A multidão chegou e junto com ela os ataques verbais. Dali para atirar os primeiros rojões no céu foram apenas alguns minutos. Dali para o ângulo em relação ao solo diminuir e mirar na escadaria foram segundos.

Momento em que bomba é disparada contra o grupo de policiais em frente à Alerj (Foto: Bruno Jenz Doria de Araujo/VC no G1)

Alguns policiais correram para dentro da Alerj, outros dispersaram pelas laterais e a multidão tomou conta do espaço.

Manifestantes entram em confronto com a PM em frente a Alerj (Foto: Pedro Kirilos/Agencia O Globo)
Logo depois os primeiros molotovs na escadaria.


Os policiais retribuíam de vez em quando com gás lacrimogênio e tiros mas eram milhares de pessoas na Antônio Carlos.


Houve uso de armas com munição letal e aparentemente dois manifestantes deram entrada em hospital com ferimento a bala letal.



Mas, a rigor, não havia o que a polícia fazer a não ser conter a entrada dos manifestantes na Alerj. O grupo de confronto direto era relativamente pequeno, algumas centenas talvez, mas milhares permaneciam à volta.

Dali pra frente a coisa só degringolou; dois carros queimados, ruas com lixos pegando fogo, vidraças quebradas, um grupo pequeno conseguiu invadir a Alerj, pessoas feridas com armas de fogo (não borracha). Apesar disso, mesmo a 100 m da escadaria o clima não era exatamente de caos ou pânico. Vez por outra tinha uma correria por conta de uma bomba de efeito moral, mas as pessoas circulavam livremente. O confronto direto era focado na porta da frente e na lateral do prédio, e depois incluiu a porta de trás da Alerj. A polícia esperou o número de manifestantes diminuir até por volta de 23:30, quando o batalhão de choque dispersou os remanescentes da frente da Alerj.

Conclusão: dessa vez os manifestantes (um grupo menor) começou o confronto. Era visível a quem acompanhava quem eram as pessoas. A polícia pouco revidou. Milhares se mantiveram no entorno por muito tempo, pacificamente. Por outro lado, nada aconteceu (em termos de violência) até a polícia se colocar no caminho da manifestação. Era óbvio o que iria acontecer se os policiais se mantivessem naquela posição. A saída estratégica de uma parte dos policiais, permanecendo apenas um contingente menor num cordão de isolamento da escadaria, me pareceu orquestrada. Não fazia sentido do ponto de vista de segurança do espaço público, nem do ponto de vista de mitigação de conflito, aquele pequeno contingente permanecer ali. Já estou no terreno da conjectura, mas como conjectura não faz mal a ninguém, parece que a tenda realmente está sendo armada para a lei anti-terrorismo. Afinal de contas, a Copa das Confederações é o evento teste para Copa do Mundo e Olimpíadas, inclusive para esquemas de segurança.

É possível que a sociedade do espetáculo esteja deixando o conforto da poltrona, mas esteja apenas mudando de mídia. Que esteja se tornando teatro a céu aberto. Aguardemos as cenas do próximo ato.

Fim de ato.

Exit stage left.

16 de junho de 2013

Enquanto isso, no Rio...



O confronto no parque aconteceu depois do Batalhão de Choque dispersar os cerca de 300 manifestantes do entorno do estádio do Maracanã com bombas de efeito moral e balas de borracha.

Policiais do Batalhão de Choque (BPChq) jogaram bombas de gás lacrimogêneo e dispararam balas de borracha contra os manifestantes na subida do Viaduto de São Cristóvão, um dos acessos ao Maracanã. Os manifestantes correram pela Avenida Radial Oeste em direção ao Centro. Agentes da Força Nacional de Segurança também participam do esquema de segurança.

Torcedores que chegavam ao estádio ficaram assustados com o confronto e tentaram procurar abrigo. Muitos, inclusive crianças, ficaram em meio ao tumulto e sofreram com os efeitos das bombas de efeito moral: ardência nos olhos e na garganta. Agentes da Força Nacional de Segurança também participam do esquema de segurança.

Os integrantes do protesto seguiram, então, para a Rua Almirante Baltazar, em São Cristóvão, que chegou a ficar interditada na tarde deste domingo (16). O local é próximo à estação de São Cristóvão, um dos acessos para quem vai ao Maracanã.

Por volta das 16h10, houve novo confronto. Policiais do Batalhão de Choque atacaram os manifestantes, mesmo sem terem sido agredidos. Para liberar a via ao trânsito, novamente, eles jogaram bombas de gás lacrimogêneo e dispararam balas de borracha.

O estudante de Tecnologia da Informação, Cauê Maia, de 25 anos , foi atingido por uma bala de borracha e afirmou que irá prestar queixa. "Se a gente for violento, se iguala a eles. Eu vou na delegacia agora dizer que fui agredido pelo poder público. O que eu ia dizer se eu tivesse sido violento?", disse o jovem, acrescentando que não atacou os policiais.

Gás na Quinta da Boa Vista

Parte dos manifestantes correu para dentro da Quinta da Boa Vista, parque utilizado como área de lazer pelos cariocas, principalmente aos fins de semana. A polícia jogou bombas de efeito moral dentro da Quinta, assustando quem estava no parque. Famílias que faziam piqueniques saíram correndo em busca de abrigo.

Um grupo de 50 pessoas (entre homens, mulheres e crianças) celebrava uma festa de aniversário no parque, quando foi surpreendido pela manifestação que continuou na área de lazer. O auxiliar administrativo Sérgio Machado, de 40 anos, estava na festinha com o filho de 8 anos e a mulher.
Após confronto, manifestantes sentam em frente ao museu da Quinta (Foto: Maricuha Machado/G1)Após confronto, manifestantes sentam em frente ao
museu da Quinta


Segundo ele, as crianças entraram em pânico quando manifestantes correram para dentro da Quinta da Boa Vista e a polícia reprimiu com gás de pimenta e bombas de efeito moral. "Isso é um absurdo. As crianças ficaram desesperadas. Estávamos comemorando um aniversário e acontece isso", lamentou Sérgio.

Pedro Mesquita estava na Quinta da Boa Vista quando os mabifestantes entraram correndo. "Os policiais não entraram, mas jogaram bomba e o gás entrou aqui", disse.

Segundo um policial do Batalhão de Choque, uma idosa que tem uma barraca na porta da Quinta da Boa Vista passou mal por causa do gás lacrimogêneo e precisou ser atendida.

Depois do incidente, muitas pessoas que estavam no parque ficaram com medo de ir embora. Ainda com resquícios da fumaça, crianças e mulheres reclamaram de ardência nos olhos.

This is what's happening in Brazil



In a Freudian sense, we are witnessing the return of the repressed. If you tell people for two decades that there is no alternative to the world in which they live, and if in the meantime you take away their income, their rights, their public services, and their last-remaining shreds of dignity, you can expect that psychological repression of revolutionary potential to come out in some other form sooner or later.


The magic is gone. The spell is broken. And what the people of the world are trying to make clear to those in power is that we know. We know that the system is rotten at the core. We know that its alleged successes do not hold up to scrutiny. The edifice is falling apart, and frankly speaking, our leaders do not even have a clue what to do about it.


an entire generation of young people, deprived of hope and opportunity, is rising up to contest the absurd notion that this disastrous state of affairs somehow constitutes the culmination of “mankind’s ideological evolution.” Is this really the best we can do?


The ideological narrative is the same everywhere: “we’re all in this together; we all need to tighten our belts,” but the implicit message is really: “do not dare to imagine an alternative.”


While certain Utopian longings may inspire us to soar to ever greater heights as a species, we always have to remember that no social order is given forever. As long as there is injustice, there will be struggle — and since there will always be injustice, there will always be struggle.


The rise of the indignant is nothing but the collective realization that liberal representative democracy, under the conditions of deep economic integration, is not really liberal or representative at all.


When the system forces ordinary people to become revolutionaries, you know you’re no longer at the End of History. You’re at the very edge of it.