A Caverna

Esta é a caverna, quando a caverna nos é negada/Estas páginas são as paredes da antiga caverna de novo entre nós/A nova antiga caverna/Antiga na sua primordialidade/no seu sentido essencial/ali onde nossos antepassados sentavam a volta da fogueira/Aqui os que passam se encontram nos versos de outros/os meus versos são teus/os teus meus/os eus meus teus /aqui somos todos outros/e sendo outros não somos sós/sendo outros somos nós/somos irmandade/humanidade/vamos passando/lendo os outros em nós mesmos/e cada um que passa se deixa/essa vontade de não morrer/de seguir/de tocar/de comunicar/estamos sós entre nós mesmos/a palavra é a busca de sentido/busca pelo outro/busca do irmão/busca de algo além/quiçá um deus/a busca do amor/busca do nada e do tudo/qualquer busca que seja ou apenas o caminho/ o que podemos oferecer uns aos outros a não ser nosso eu mesmo esmo de si?/o que oferecer além do nosso não saber?/nossa solidão?/somos sós no silêncio, mas não na caverna/ cada um que passa pinta a parede desta caverna com seus símbolos/como as portas de um banheiro metafísico/este blog é metáfora da caverna de novo entre nós/uma porta de banheiro/onde cada outro/na sua solidão multidão/inscreve pedaços de alma na forma de qualquer coisa/versos/desenhos/fotos/arte/literatura/anti-literatura/desregramento/inventando/inversando reversamento mundo afora dentro de versos reversos solitários de si mesmos/fotografias da alma/deixem suas almas por aqui/ao fim destas frases terei morrido um pouco/mas como diria o poeta, ninguém é pai de um poema sem morrer antes

Jean Louis Battre, 2010

11 de dezembro de 2017

Horário Livre


 A velha mais velha do asilo. Mesmo banco de todas as tardes. Fundo sombrio da varanda, últimas luzes cinzentas do crepúsculo. Fala pouco, quase nada. Quando se dirigem a ela, responde cumprimentos, agradece gentilezas e diz amém (se for necessário). Falar cansa. Resta ficar pensando, o tempo todo.   

Puro engano, a ideia de que o tempo é livre e democrático. Parece que todos têm direito ao mesmo tempo, que cada um usa como quiser. Não é bem assim. É muito além das medidas conhecidas. Tempo não é coisa única que se divide, igualmente, entre as pessoas. O tempo corre em velocidade íntima e penetra nos espaços vazios de cada vida. Minutos, segundos, horas ou anos podem ter durações diferentes para cada indivíduo – e demorar o tanto que a subjetividade exige no momento.

Três anos no asilo. Professora aposentada. Viúva de oficial do exército – metódico e previsível. Vida programada. Casamento de 52 anos. Relação amiga, respeitosa e equilibrada com o militar da artilharia. Muito tempo. Não teve filhos. Nenhuma grande paixão. Prazeres mínimos – nunca teve oportunidade para transgredir. Não havia grandes traumas ou tragédias para lamentar, mas também nada espetacular guardado na memória. Vida neutra, regular, correta, bem traçada (como os cálculos de balística do coronel).  Vida repetitiva (como a cadência do batalhão no desfile da independência, que o marido comandava com tanto orgulho).  Estudo e trabalho: únicas razões que preencheram a vida da mulher. Poucas emoções fortes para recordar.  As melhores lembranças vinham das aulas de física, trabalho de décadas, no colégio e na faculdade. Considerava um privilégio a missão de ensinar... o funcionamento do mundo.

O tempo mora na alma. O tempo moral, temporal, é tempestade, besta, vendaval. O tempo não é infalível. Errado pensar que o tempo é exato e não falha. Falha e falta, porque nasce e morre dentro da gente. Enquanto escorre, tem o tamanho que quiser. É música silenciosa que embala o curso do universo. Compasso e ritmo definem sua existência. O tempo é invenção desvairada de cada pessoa, na dança consigo mesma. Não é coisa geral. Tempo universal (organizado em fatias) é como cena parada de um filme – cinema que vira fotografia.  

Poucos parentes, a maioria já morreu. Sobrinhos e fiéis agregados apareciam vez ou outra – no aniversário, páscoa, véspera de natal e coisas assim. Sempre apressados, constrangidos, tentando demonstrar que tinham algo mais importante para fazer.  A única visita que lhe fazia bem era Ester, ex-aluna que reencontrara, por acaso, no asilo. Duas vezes por mês, Ester passava lá para ver o avô e dedicava um bom tempo para conversar com a antiga professora. Ester – a única que não inventava motivos para dizer que estava na hora de ir embora.  Só saia quando a velha dizia que precisava descansar.    

Há séculos, o terrível vício das horas aflige a humanidade. Desde que foi criada a civilização do relógio (para facilitar a divisão social dos talentos e reprimir excessos de velocidade de imaginação) a desconstrução do tempo é considerada insulto científico ou distúrbio pessoal. Difícil fazer entender aos viciados em calendários e agendas que é impossível regular os momentos e a cadência da vida. Tão esdrúxulo como tentar disciplinar o vento. Ou pensar a sucessão das eras como uma sequência contínua em direção a um futuro fixo (como se só existisse o presente, cuja função seria apagar o passado).

Lembrou orgulhosa dos exemplos poéticos que construía para explicar fenômenos misteriosos com as forças da natureza.

A velha professora detestava os livros que ganhava.  Histórias tolas, manuais de autoajuda, meditação, pensamento positivo ou mensagens religiosas de preparação para a  morte. Preferia ficção científica, aventuras que desafiavam a inteligência e propunham novos pensamentos. Gostava mais dos clássicos. A imaginação dos autores da atualidade ficava cada vez mais tecnológica do que científica. O desastre estava aí: pouca ciência para muita tecnologia. Ultimamente, mantinha no colo o pequeno volume que Ester trouxe de presente. Os Crononautas (tradução horrível), que narra viagens no tempo de um grupo de cientistas, que descobre equações mentais que permitem deslocamentos no espaço com a força do pensamento. 

Não se deve acreditar que o tempo só caminha para frente. Nada mais falso. O tempo é etéreo e volátil. Pode andar para frente, para trás, para cima, para baixo e para qualquer lado. O tempo é invisível. Lugar móvel, abstrato, onde fica guardado tudo que existe, existiu ou existirá.  Voa, na velocidade total de todas as galáxias, sendo capaz de atingir qualquer distância cabível no universo. Às vezes, fica entupido num canto sem saída. Como dentro da garganta daquele velho com cara de monstro.

O avô de Ester não gostava da velha.  A neta parecia mais interessada na professora maluca do que nos problemas de saúde que ele relatava com profundo sentimento de carência e abandono. Maldizia a tarde que Ester reconheceu a professora, solitária, no canto da varanda. Foi ele que começou a espalhar que a velha era um perigo.

– Minha neta contou que ela é um gênio. Sabe tudo sobre energia nuclear. Foi até convidada para trabalhar na Nasa, mas o marido não concordou. Cuidado com ela! É um gênio, mas é meio desequilibrada. Tenho certeza que está aprontando alguma coisa. Olha a cara dela: parece que vive com raiva da humanidade.  Gente assim é capaz de tudo. Já imaginou se ela resolve fabricar uma bomba? Provocar uma explosão, causar um curto, um incêndio...

O mundo perde vida com a ideologia do tempo aprisionado. Inteligências criativas são bloqueadas e se atrofiam. Tempo expresso em números; tempo vigiado em tabelas e prazos; tempo apertado em competições de sobrevivência. Na vida corrida, condicionada a datas e compromissos marcados, sentimentos fraternos e respeito solidário são rebarbas de excessos. Tempo engarrafado, paralisante, epidemia de angústia, destruição da harmonia natural e ilusão de um futuro salvador. Droga pesada.

Tempo é liberdade! Abaixo opressores e compressores do tempo! Tempo livre. Solto e vago!  O tempo é leito de luz e usina de memória – confinado, compromete competências do espírito e altera a hierarquia dos desejos. Cada espécie é especialista em saber viver – entender o tempo que tem. Vida e morte, no mesmo trampolim. O mesmo ponto pode ser princípio ou fim. Depende da convenção. O amarelo é a menor distância entre o verde e o azul. Quantos tons existem entre os dois? Cor é luz diluída no calor do tempo.  Enquanto existir fusos horários, cronômetros e formas de medir o tempo, as pessoas não serão livres para perceber as verdadeiras variações das cores e as pulsações mutantes das estrelas. O tempo limitado no ciclo das horas aprisiona a humanidade na periferia da terra. Por isso ficamos isolados de outras civilizações extraterrestres. É preciso libertar o tempo.
    
O velho implicante foi quem ficou mais alegre, quando o diretor do asilo avisou que a professora não podia mais ficar interna na casa.  Cleptomania. Encontraram diversos relógios, desaparecidos dentro do asilo, escondidos no quarto da velha. Só não entenderam porque tinham sido destruídos com tanta violência.  

Ramayana Vargens

30 de novembro de 2017

Lobos internos

Um velho Cherokee dava lições de vida aos seus netos.Disse-lhes:

"Está se travando uma luta dentro de mim. Luta terrível, entre dois lobos.Um é o medo, a cólera, a inveja, a tristeza, o remorso, a arrogância, a autopiedade, a culpa, o ressentimento, a inferioridade e a mentira.

O outro é a paz, a esperança, o amor, a alegria, a delicadeza, a benevolência, a amizade, a empatia, a generosidade,a  verdade, a compaixão e a fé.

A mesma luta está se travando também dentro de vocês e de todas as outras pessoas..."

As crianças puseram-se a refletir sobre o assunto e uma delas perguntou ao avô:

"Qual dos lobos vencerá?"

O ancião respondeu:

"Aquele que for alimentado..."

Lenda Cherokee

26 de novembro de 2017

adão

homem, sua desventura não tem nome
a fala é além das coisas, mas está aquém de tudo
com inveja observa os animas que apenas são
tem medo dos animais pois eles são imunes aos nomes

(dizem a vida em seu silêncio apenas sendo)

você, perdido entre tantos nomes, chora
mas finge que não chora
quer a fuga dos nomes
mas segue nomeando o mundo

Salvador Passos

incêndio

a chuva acontece em mim
a morte é apenas um espelho do relógio

na palavra dói o nome
o tempo
a pedra
o incêndio

o segredo que não cabe nos dizeres

Salvador Passos

18 de novembro de 2017

o pouco basta pro poeta

o pouco basta pro poeta

arrancar asfalto com as unhas
revela a falta que afoga o peito

queria perder
o ato atávico de atar a vida
podar o dia,
prender corpo,
guardar a fala
enquanto o tempo passa em branco

viver é ter o tempo impresso nos cabelos
ter os braços longos como a chuva
abraçar o abstrato entre as rimas
rimar os rumos rústicos da terra
envergar a tarde no horizonte
até ela encostar na noite
perder a posse que possui a gente
beber a água que nos corre o verbo
o rio que percorre o ventre
ver o vento entre a sombra e o breve
o ar que arfa entre a dor com força
a foz que faz a forma em nome
a voz que reverbera o verbo
a noite que enverga o tempo
e dói na sede que não cede

Salvador Passos

novembro

me abri em poemas
inscrito
na solidão noturna da distância
fui um eu que não me era
ânsia amarga
deste ar que me faltava
errei meus passos
pelos cantos
a noite me foi entregue
e dela nada fiz
fui apenas nome
enxerguei nos ventos de concreto
o teu silêncio

invadi tua cidade
armado apenas com poemas
li os teus segredos sublinhados

a noite invadiu as margens do poema
deixei palavras pelos cantos
deixei janelas abertas
a casa guardava seus espaços em silêncio
 
Salvador Passos

chuva de poesia



poesia é:
do(ar)

Salvador Passos